
V-SÃO PAULO E A EVANGELIZAÇÃO DOS PAGÃOS
O relato da evangelização da família de Cornélio dá-nos a impressão de que Pedro foi o grande evangelizador dos pagãos.
De facto não foi assim. São Lucas, com este texto, pretende dizer apenas que está legitimada a pregação dos pagãos, pois Pedro já o fez por mandato do Espírito Santo (Act 10, 9-20).
Com este relato, São Lucas quer significar que a evangelização dos pagãos é algo realizado e confirmado pela comunidade de Jerusalém.
São Lucas não está preocupado com o rigor dos factos históricos. O que de verdade lhe interessa teológica segundo a qual a evangelização dos pagãos é uma acção fundamental para o nascimento de Igreja e a difusão do Evangelho.
São Lucas tenta harmonizar as coisas dizendo que tanto a Igreja de origem judaica, como a Igreja de origem pagã são obra do Espírito Santo.
Como vimos, o primeiro pagão a ser incorporado na Igreja foi evangelizado pelo diácono Filipe, sob a condução do Espírito Santo.
Trata-se do baptismo de um eunuco, o qual era um alto funcionário da rainha Candace (Act 8, 26-40).
Segundo a lei mosaica, um eunuco não podia fazer parte do povo de Deus (Dt 23, 2; Esd 56, 3-7; Neem 13, 1-3).
Ao elaborar este relato, São Lucas afirma claramente que o novo Povo de Deus não assenta nas prescrições do judaísmo.
São Lucas tenta harmonizar constantemente a acção evangelizadora dos cristãos da Palestina representados por São Pedro e os cristãos de origem helenista representados por São Paulo.
São Pedro pretende conduzir os pagãos para as práticas judaicas e São Paulo, muito mais culto e aberto opõe-se a tal pretensão.
Os pagãos, defende São Paulo, devem ser tratados exactamente como os judeus no que se refere à sua incorporação na Igreja.
No fundo, os Actos dos Apóstolos são uma demonstração de que a missão de São Paulo é um milagre do Espírito Santo.
Não é por acaso que o Livro dos Actos dos Apóstolos relata três vezes a conversão de São Paulo (Act 9, 1-19a; 22, 1-21; 26, 9-20).
São Lucas dedica cinquenta e um versículos a este grande acontecimento. Isto diz bem a importância que ele atribui à conversão de São Paulo.
Para acentuar, não a maldade de São Paulo, mas a força transformadora do Espírito Santo, São Lucas começa por apresentar São Paulo como o grande perseguidor da fé.
Quando ainda era adolescente, o ainda chamado Saulo, colabora no martírio de Estêvão: “Saulo aprovava também essa morte” (Act 8, 1).
Depois entra nas casas dos cristãos para os maltratar e levar para a prisão (Act 8, 3). Com estes reparos São Lucas tenta acentuar a força miraculosa do Espírito Santo no acontecimento da conversão de Paulo.
Agora, uma vez convertido, deve ser confirmado, a fim de ser aceite e reconhecido como o grande escolhido de Deus para a obra do Evangelho.
Para isso, Paulo deve entrar na cidade e dirigir-se à comunidade onde lhe será dito o que deve fazer (Act 9, 6).
Os relatos de São Lucas contrastam com os relatos das cartas de São Paulo. Segundo o que ele relata na Carta aos Gálatas, a sua prática missionária não procedem de qualquer homem, mas sim de uma inspiração do Espírito Santo (Gal 1, 11-12).
São Paulo está de acordo com São Lucas quando fala do seu zelo pelo judaísmo, a ponto de ser perseguidor da Igreja de Deus (Gal 1, 13).
Mas Deus, na sua infinita bondade, chamou-o para anunciar o Evangelho entre os gentios. Quando sentiu o chamamento de Deus, não consultou qualquer homem.
Também não foi a Jerusalém para consultar os que tinham sido Apóstolos antes dele.
Pelo contrário retirou-se para a Arábia, a fim de fazer uma longa meditação.
Depois voltou a Damasco, a cidade onde aconteceu a sua conversão (Gal 1, 16-17). Passados três anos de missão decidiu ir a Jerusalém, a fim de visitar São Pedro, acabando por ficar quinze dias com ele (Gal 1, 18).
Não viu mais nenhum Apóstolo, a não ser Tiago, o irmão de Jesus (Gal 1, 19). Tiago não fazia parte dos Doze, mas São Paulo chama-o Apóstolo.
Na realidade, os diáconos eram Apóstolos, isto é, missionários itinerantes entre os pagãos. São Lucas legitima a obra de São Paulo dizendo que São Pedro foi o primeiro a pregar e fazer conversões entre os pagãos (Act 10, 1-18).
Só depois Paulo e os diáconos passaram a pregar o Evangelho aos pagãos (Act 11, 20). Uma vez legitimada a sua missão, surge uma enorme multidão de pagãos convertidos (Act 11, 22).

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