segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

SABOREANDO A FIDELIDADE DE DEUS

Deus Santo,

O pecado do Homem, apesar de atrasar o vosso projecto salvador, não o conseguiu anular.
Como homem totalmente fiel ao vosso plano, Jesus Cristo tornou-se o alicerce sólido da Nova e Eterna Aliança, fazendo de nós filhos de Deus.

Filho Eterno de Deus,
Tu eras o Filho único de Deus Pai. Mas ao fazer-te nosso irmão tornaste-te o primogénito de muitos irmãos, como diz São Paulo (Rm 8, 29).

Espírito Santo,
Com o teu jeito maternal de amar, tu nos conduzes à comunhão com Deus Pai, o qual nos acolhe como filhos e à comunhão com o Filho de Deus, nos que recebe como irmãos.


Eis o que São Paulo diz a este respeito: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho (…) para que nós recebêssemos a adopção de filhos.

E porque somos filhos, Deus enviou ao nosso íntimo o Espírito de seu Filho que clama: “Abba”, ó Pai!

Deste modo já não és escravo, mas filho. E se és filho és também herdeiro pela graça de Deus” (Ga 4, 4-7).

Ninguém vos merece Deus Santo. Vós estais para além de todo o mérito que possamos ter. Mas estais connosco, pois sois um Deus que se dá de graça.

Espírito Santo,
Dá-nos o dom da Sabedoria, a fim de podermos compreender a fidelidade de Jesus ao plano de Deus Pai e o seu amor por nós que foi até ao ponto de morrer por nós.

Ajuda-nos a compreender também que da nossa fidelidade pode depender o bem e a felicidade de uma multidão de irmãos nossos.

Capacita-nos para sermos mediação da fidelidade de Jesus Cristo, dando o melhor de nós mesmos pelos nossos irmãos.

Dá-nos a mesma certeza que Jesus tinha de que Deus toma partido pelos que gastam a vida pela causa do amor.

Senhor Jesus Cristo,
A tua ressurreição é a confirmação de que Deus não permite que o justo seja destruído pela iniquidade.

Foi de modo plenamente livre e consciente que tu decidiste ser nosso irmão, a fim de sermos incorporados na Família de Deus.

Tu és realmente a Cabeça da Nova Criação como diz São Paulo: “Se alguém está em Cristo é uma Nova Criação. O que era antigo passou. Eis que tudo se fez novo.

Tudo isto vem de Deus que, em Jesus Cristo, nos reconciliou com Deus, não levando mais em conta o pecado dos homens” (2 Cor 5, 17-19).Tu és o único medianeiro entre Deus e o Homem (1 Tim 2, 15).

Senhor Jesus,

Dá-nos a força do Espírito Santo para que ele nos vá ressuscitando e incorporando na Família de Deus.
Tu és o Novo Adão, pois nós fomos reconciliados com Deus, graças ao facto de seres um homem totalmente fiel.

Tendo sido criado à imagem e semelhança de Deus, Adão não aceitou a sua condição de servo de Deus. Deste modo nos conduziu para o caminho do fracasso.

Também tu, Jesus Cristo, és a imagem perfeita da Deus. Mas ao contrário de Adão, não quiseste pôr-te em lugar de Deus.

Pelo contrário, pela tua obediência e fidelidade incondicional, colocastes-nos, de novo, no caminho
da comunhão com Deus.

Eis a maneira como a Carta aos Colossenses descreve este contraste entre a tua atitude, Jesus, e a atitude de Adão:

“Jesus Cristo é a imagem perfeita do Deus invisível. Ele é o primogénito de toda a Criação. Foi de acordo com ele que todas as coisas foram criadas, tanto as do Céu como as da Terra, as visíveis e as invisíveis (…).

Tudo foi criado nele e por ele, pois ele é anterior a todas as coisas e todas subsistem nele. Ele é a cabeça da Igreja, o princípio e o primogénito de entre os mortos, a fim de ter a primazia em todas as coisas.

Aprouve a Deus que habitasse nele toda a plenitude, a fim de que todas as realidades fossem reconciliadas com Deus” (Col 1, 15-20).

Pai Santo,

Alivia-nos dos fardos que bloqueiam a nossa caminhada para ti. Dá-nos a força para nos libertarmos dos nossos ódios e ressentimentos.

Espírito Santo,
Fortalece-nos, a fim de sermos capazes De dar um salto de qualidade, fazendo que a nossa vida banal e sem rasgos de criatividade faça emergir o Homem Novo segundo Cristo.

Espírito Santo,
És tu quem nos ajuda a saborear o mistério de Jesus ressuscitado como garantia da nossa ressurreição!

Ele é, realmente, a Árvore da Vida que nos dá o fruto da vida eterna que és tu, Espírito Santo!

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

SABOREANDO O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS

I-O REINO DE DEUS ESTÁ PRÓXIMO

Jesus iniciou a sua pregação anunciando a proximidade do Reino de Deus e a convidar as pessoas a converterem-se.

Eis o que diz São Marcos: “Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo:

“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 14-15).

Os evangelhos dão a entender que o Reino de Deus é um mistério, isto é, um segredo que Deus decidiu revelar aos discípulos através do seu Filho, diz São Marcos:

“A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus. Mas aos de fora tudo lhes é proposto em parábolas” (Mc 4, 11).

A Carta aos Efésios esclarece melhor este aspecto, dizendo que Deus resolver revelar o mistério do Reino de Deus, a fim de os Apóstolos poderem anunciar aos seres humanos o plano salvador de Deus:

“Deus manifestou-nos o mistério da sua vontade e o plano generoso que tinha estabelecido para conduzir os tempos à sua plenitude, isto é, submeter tudo a Cristo, reunindo nele o que há no Céu e na Terra” (Ef 1, 10).

E depois acrescenta: “Por revelação me foi dado conhecer este mistério, tal como antes vo-lo descrevi resumidamente.

Lendo-o podeis fazer uma ideia da compreensão que tenho do mistério de Cristo, o qual não foi dado a conhecer aos filhos dos homens em gerações passadas, como agora foi revelado pelo Espírito Santo aos seus santos Apóstolos e Profetas.

Segundo este mistério, os gentios são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo e participantes da mesma promessa em Cristo Jesus, por meio do Evangelho” (Ef 3, 3-6).

Ao mandar os discípulos pregar o Reino de Deus, Jesus indica-lhes que o Reino coincide com a meta do Plano Salvador de Deus (Lc 9, 2).

Os que forem perseguidos por causa da justiça, isto é, por causa da sua fidelidade a Deus, devem considerar-se felizes, pois deles é o Reino de Deus (Mt 5, 10).

Procurar o Reino de Deus é procurar o fundamental da salvação: “Procurai o Reino de Deus e a sua justiça e tudo o resto vos será dado por acréscimo” (Mt 6, 33).

Ser justo é ser fiel à vontade de Deus. O Reino assenta no poder de Deus que é a força criadora e salvadora do amor.

Eis o que diz a Primeira Carta de São João: “O amor de Deus manifestou-se desta maneira no meio de nós:

Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por meio de ele, tenhamos a vida” (l Jo 4, 9).

O tema da pregação de João Baptista era a necessidade da conversão para acolher o Reino de Deus que estava para chegar:

“Convertei-vos, dizia ele, pois o Reino de Deus está próximo” (Mt 3, 1-2). Os milagres de Jesus significavam que a força libertadora do Espírito Santo estava presente e activa.

Segundo os profetas, o sinal claro da chegada do Reino de Deus era a acção libertadora do Messias a actuar com a plenitude do Espírito Santo:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé e um renovo brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor: Espírito de sabedoria e entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor” (Is 11, 1-2).

Era este o modo como Jesus via o sentido da sua acção libertadora:
“Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demónios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12, 28; Lc 12, 31).

Jesus nunca confundiu o Reino de Deus com um reino terreno. Para ele, o Reino de Deus acontece ao nível da renovação dos corações e da libertação de tudo o que impede e o respeito pela dignidade humana.

No evangelho de São João, Jesus diz que é preciso nascer de novo para entrar no Reino de Deus:
“Quem não nasce do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasce da carne é carne, o que nasce do Espírito é Espírito” (Jo 3, 5-6).

O Reino de Deus implica decisão e fidelidade à vontade de Deus: “Quem lança mão do arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 62).

E ainda: “Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).

O Livro dos Actos dos Apóstolos diz que São Paulo, depois da sua conversão, passou a vida a anunciar o Reino de Deus (Act 28, 31).

Segundo o testemunho dos evangelhos, os Apóstolos só começaram a ter uma ideia clara do Reino de Deus depois da ressurreição de Jesus.

Antes, disso os apóstolos apenas entendiam a realidade do Reino de Deus segundo os critérios humanos e não segundo os critérios de Deus (Mt 16, 23).

Isto quer dizer que o Reino de Deus é o ponto mais alto do Plano Salvador de Deus para a Humanidade.
II-O REINO DE DEUS COMO COMUNHÃO ORGÂNICA


A grandeza de Jesus Cristo é humano-divina, pois assenta no mistério da Encarnação através da qual o Divino se enxertou no Humano, a fim de a Humanidade ser divinizada.

Por ser de grandeza humano-divina, o mistério de Jesus Cristo envolve uma união orgânica, interactiva e fecunda entre a Humanidade e a Divindade.

Esta união orgânica do divino com o humano acontece como uma interacção directa animada pelo Espírito Santo.

São Paulo diz que as pessoas que se deixam conduzir pela acção do Espírito Santo são incorporadas na Família de Deus como filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação ao Filho Eterno de Deus (Rm 8, 14-16).

Nesta interacção humano-divina, o humano e o divino fazem uma união, mas não uma fusão.
Por outras palavras, em Jesus Cristo o humano realiza-se perfeitamente, pois ele é um homem em tudo igual a nós menos no pecado.

Por fazer uma união orgânica com toda a Humanidade, Jesus Cristo é, realmente o único medianeiro entre Deus e o Homem (1Tm 2, 5).

Do mesmo modo, a Segunda pessoa da Santíssima Trindade é plenamente Deus com o Pai e o Espírito Santo.

É por esta razão que nós somos incorporados na comunhão familiar da Santíssima Trindade.
Utilizando uma imagem diria que o ramo de limoeiro, enxertado na laranjeira, continua a dar limões e não laranjas.

Isto quer dizer que pela dinâmica da Encarnação nem a divindade é mutilada nem a Humanidade é anulada.

A seiva que circula e alimenta esta união orgânica é o Espírito Santo, o qual faz do nosso coração uma morada.

São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Por ser o ponto de encontro e o vínculo de união orgânica do humano com o divino, Jesus Cristo é, realmente, o único medianeiro entre Deus e o Homem.

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai a não ser por mim” (Jo 14, 6).

Isto quer dizer que Jesus Cristo é o alicerce do Reino de Deus, pois é através dele que acontece o encontro definitivo da Humanidade com a Divindade.

Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João: “Pai Santo, eu dei-lhes a glória que tu me deste, a fim de que sejam um como nós somos um.

Eu neles e tu em mim, Pai Santo, para que cheguem à perfeição da unidade e deste modo o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como me amaste a mim” (Jo 17, 23-24).

Isto quer dizer que o Reino de Deus está em génese na História e culmina na assunção e incorporação do Homem na Família de Deus.

O Reino de Deus era o tema central da pregação de Jesus. Este Reino tem como lei única o amor e é o horizonte máximo da Esperança Cristã.

É importante não confundir Igreja com o Reino de Deus. A Igreja é sacramento, isto é, explicita e torna visível a dinâmica do Reino a emergir na História.

Ao mesmo tempo, a Igreja é uma mediação do Espírito Santo para facilitar a emergência histórica do Reino de Deus.

A Carta aos Efésios sublinha este papel da Igreja quando diz: “A mim, o menor de todos os santos, foi-me dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido em Deus, o Criador de todas as coisas.

E deste modo, por meio da Igreja, é agora dada a conhecer a multiforme sabedoria de Deus, de acordo com o desígnio eterno que ele planeou em Cristo Jesus nosso Senhor” (Ef 3, 8-11).

Dizer que a Igreja é sacramento, significa que a sua missão é histórica e só para a História. No Reino de Deus já não há sacramentos, pois as pessoas estão na evidência e na posse de todas as coisas.

Por outras palavras, no Reino de Deus já não há sacramentos, mas sim a realidade explicitada agora pelos sacramentos.

Na sua perfeição e meta, o Reino de Deus coincide com a humanidade divinizada em Cristo.
O Reino de Deus é para toda a Humanidade.
Mas para tomar parte nesta festa da plenitude é preciso ter a veste nupcial, isto é, ter um coração capaz de comungar fraternalmente.
Eis as palavras de Jesus no evangelho de São Mateus: “Jesus disse-lhes: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vão preceder-vos no Reino de Deus.

João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça e não acreditastes nele. Mas os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram, aceitando a sua mensagem” (Mt 21, 31-32).

Na Comunhão Universal do Reino de Deus, a palavra decisiva compete sempre ao amor.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias





terça-feira, 3 de Novembro de 2009

O HOMEM E A MULHER NO PLANO DE DEUS

I-HOMEM E MULHER, DEUS OS CRIOU
A Humanidade leva em si, o selo da difereça e da complementaridade. Por outras palavras, o rosto humano tem duas faces diferenciadas: a face masculina e a face feminina.

O Homem foi talhado por Deus à sua imagem e semelhança. Isto quer dizer que o Homem, à semelhança de Deus, é um mistério de relações interpessoais.

Na verdade, Deus é uma comunhão onde cada uma das pessoas divinas exprime a sua realidade pessoal de modo único, original, irrepetível e com uma capacidade infinita de amar.

Podemos dizer que o ser e o estar de Deus é um mistério de relações. O Céu é um campo espiritual contínuo de interacções amorosas, o qual constitui a interioridade máxima de toda a realidade, inclusive o coração humano.

Isto quer dizer que o ponto de encontro com Deus e com a comunhão universal dos santos começa a partir do nosso coração.

Deus é o Emanuel, isto é, o Deus connosco. Ao criar o Homem à Sua imagem e semelhança, Deus não podia deixar de o criar como conjunto de pessoas abertas para as relações e comunhão amorosa.

A semelhança principal entre Deus e o Homem radica no facto de a Divindade ser pessoas e a Humanidade também.

Uma pessoa isolada da união orgânica não pode realizar nem atingir a sua plenitude. O próprio facto da condição sexual do ser humano é o alicerce sobre o qual se edifica a pessoa como ser talhado para a relação e o amor como interacção de diferenças.

O Deus Comunhão de amor ao sonhar o Homem como varão e mulher estava a preparar um moldado para o encontro.

Eis o que diz o Livro do Génesis no relato da criação do Homem: “Deus criou o Homem à Sua imagem e semelhança, varão e mulher os criou” (Gn 1, 27).

O varão e a mulher são absolutamente iguais em dignidade, pois são seres a emergir como pessoas livres, conscientes, responsáveis e capaz de amar.

Criando a mulher, Deus está a fazer emergir o amor em ondas de dom e ternura. Criando o varão, faz emergir o amor em ondas de bem-querer, coragem e firmeza.

A face feminina confere ao amor o colorido da tolerância e do perdão. A face masculina, por seu lado, exprime o sentido e a firmeza que é preciso manter face aos grandes valores da humanização, os quais não podem ser postos em causa.

Criando a mulher, Deus deu provas de que entende de ternura. Criando o varão, demonstrou ser o Deus de uma Aliança assente na firmeza e na autoridade da Palavra.

Esta Humanidade a emergir e a fluir como um rio com duas margens, dirige-se em direcção ao Oceano Infinito da Comunhão da Santíssima Trindade.

Somos imagens de Deus. Isto significa que não fomos feitos para estar sós. De facto, ninguém vê directamente o seu rosto, mas apenas o rosto dos outros. Isto quer dizer que fomos talhados para o face a face.

Reduzida a si, a pessoa está em estado de perdição. O estado de inferno é a situação da pessoa que se fechou em si mesma. De facto a plenitude da pessoa não está em si, mas na reciprocidade amorosa.

Reduzida a si, a pessoa está estado de malogro. Não tem ninguém que lhe diga: “Gosto de ti! Dá-me a tua mão e vamos fazer uma festa”.

O Estado de inferno é a negação total de Deus. Com efeito, Deus é amor, diz a Primeira Carta de São João (1 Jo 4, 7).
II-COLABORADORES DE DEUS NA OBRA DA CRIAÇÃO

Deus não nos criou de modo mágico e automático, pois somos seres em construção. Isto quer dizer que Deus começou a criar-nos e não completa a sua obra sem nós tomarmos parte na nossa própria criação.

Por ser uma união orgânica de seres pessoais, a Humanidade pertence à cúpula personalizada da Criação. Esta é a razão pela qual podemos dizer que o Homem transcende o Cosmos.

A Humanidade não existe em abstracto. Está a emergir no concreto de cada pessoa de modo consciente, livre e responsável. À medida que emergem, as pessoas convergem para a comunhão universal.

Hoje estamos nós de turno na edificação da Humanidade. Muitos outros seres humanos já estiveram antes de nós e se não destruirmos a terra bonita que Deus nos deu, muitas outras pessoas podem continuar a História da Humanidade a emergir.

Esta tarefa pertence tanto aos homens como às mulheres, pois Deus criou-os para trabalharem em conjunto na obra da Criação, diz o Livro do Génesis:

“O Senhor Deus disse: “Não é conveniente que o homem esteja só. Vamos dar-lhe um auxiliar semelhante a ele” (Gn 2, 18-19).

Ao ver Eva Adão exultou, diz o Livro do Génesis: “Então o homem exclamou: Este é realmente o osso dos meus ossos, a carne da minha carne. Chamar-se-á mulher, pois foi tirada do homem.

Por isso o homem deixará pai e mãe para se unir à sua mulher e os dois farão uma só carne” (Gn 2, 23-24).

O homem e a mulher de tal modo estão talhados um para o outro que é como se a mulher fosse arrancada do peito do homem e este arrancado do seio da mulher.

Como seres semelhantes a Deus, o homem e a mulher são criadores, isto é, seres capazes de fazer que o novo aconteça e que surjam realidades que antes não existiam.

Deus ordenou a Adão que se realizasse, não como sujeito isolado, mas como ser unido de modo orgânico a outros, diz o Livro do Génesis:

“Abençoando-os, Deus disse: “crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra” (Gin 1, 28) ”.
Ao fazer acontecer o novo, o Homem e a Mulher estão aptos a ser colaboradores de Deus na obra da Criação.

O Livro do Génesis descreve esta primazia do Homem dizendo que o Senhor Deus lhe deu as plantas, as árvores de fruto, os animais dos campos e as aves do céu (Gn 1, 29-30).
É como varão e mulher que o Homem está chamado a colaborar com Deus na obra da Criação.
Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias






domingo, 1 de Novembro de 2009

O HOMEM NA CÚPULA DA CRIAÇÃO



A Humanidade faz parte da cúpula personalizada da Criação. Esta cúpula é constituída pelas pessoas humanas, as divinas e todas as outras que possam existir.

A morada Deus é um campo espiritual contínuo de interacções amorosas cujas coordenadas se situam na interioridade máxima de todas as coisas.

Isto quer dizer que Deus chega sempre até nós a partir de dentro!

Por ser constituída por pessoas e estar chamada a comungar com Deus, a Humanidade faz parte do melhor que a Criação conseguiu concretizar.

Apesar de não serem iguais às pessoas divinas as pessoas humanas são-lhe proporcionais.

Por se estar a edificar como comunhão de pessoas, a Humanidade é já proporcional à Divindade.

Na verdade, já pode acontecer interacção e comunhão amorosa entre o Homem e Deus. Por outras palavras, as pessoas humanas não são divinas por natureza, mas graças ao acontecimento da Encarnação já fazem parte da Família de Deus.

Pela Encarnação o divino enxertou-se no humano, a fim de a Humanidade ser divinizada.

As pessoas revelam-se, quer contando a sua história pessoal, quer começando a relacionar-se em profundidade.

Apesar de a identidade dos seres humanos ser histórica, a sua vida profunda, por ser pessoal e espiritual, já tem sabor a eternidade.

Por ter sido criado para comungar com Deus, a plenitude do humano é o divino. Ao criar-nos à sua imagem e semelhança, Deus talhou-nos paras sermos membros da Família Divina, pois a Santíssima Trindade tem uma configuração de comunhão familiar:

A Primeira Pessoa da Trindade Divina tem um jeito paternal de amar. A Segunda ama com um jeito filial e a Terceira, o Espírito Santo, é o amor maternal de Deus.

Graças a Jesus Cristo, a Humanidade já está, portanto, incorporada na comunhão familiar divina.

A Humanidade é todos e cada um dos seres humanos. Não apenas os que vivem hoje na história, mas também todos os que nos precederam.

Os seres humanos que vivem actualmente na História formam a parcela dos que estão de turno na edificação da Humanidade.

Os que nos precederam são a multidão dos que já realizaram a missão histórica da sua realização como pessoas, colocando o alicerce deste edifício em construção que é o Homem.

Nós, os que estamos hoje no turno da História Humana, estamos a caminhar para a plenitude da Comunhão Universal da Família de Deus.

Os que nos precederam na História, já atingiram a meta para a qual nós estamos a caminhar.

Mas entre eles e nós existe uma união orgânica e interactiva que é a Comunhão Universal dos Santos.

Mas eles continuam organicamente unidos a nós e nós a eles, formando a comunhão Universal dos Santos.



Com Jesus Cristo chegou a plenitude dos tempos. O tempo da gestação chegou ao fim. Agora é o tempo do parto que vai dar origem ao nascimento dos filhos de Deus, como diz a Carta aos Gálatas:

“Mas quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho (…), a fim de recebermos a adopção de filhos.

E porque somos filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho que clama: Abba, Pai Querido!

Deste modo já não és escravo mas filho. Ora, se és filho és também herdeiro por graça de Deus” Gal 4, 4-7).


Após a Encarnação, esse enxerto maravilhoso do divino no humano, os seres humanos, à medida que se humanizam são já divinizados.


Com efeito, graças à união que nos liga a Cristo e, por ele, à Santíssima Trindade, já vivemos a vida da graça.


Isto quer dizer que a vida humana já está a ser optimizada de modo permanente pela acção do Espírito Santo que nos vai incorporando de modo gradual e progressivo na Família de Deus.


Através da evolução animal, o barro foi-se amassando até adquirir a sua configuração adequada, isto é, a complexidade própria do ser humano.


Depois, Deus deu-lhe o beijo primordial e o hálito da vida de Deus passou para o interior do barro dando origem ao Homem em construção.


Imaginando o plano da criação como se fosse um dia, diríamos que ao nascer da aurora, Deus amassou o barrou e comunicou-lhe a força personalizante do Espírito Santo.


Ao meio-dia, o Filho de Deus enxertou a sua vida divina no Homem pelo mistério da Encarnação, inaugurando a plenitude dos tempos e o parto que dá origem ao nascimento dos filhos de Deus.


A fome de felicidade e plenitude que levamos em nós são o sinal de que a nossa vocação é a incorporação na própria Família de Deus.


O acontecimento de Cristo ressuscitado é a garantia de que Deus não nos frustrou e de que estamos a caminhar de modo seguro para a plenitude da Vida Eterna.


O apelo interior que nos convida a crescer e a realizarmo-nos como pessoas tem sentido pleno, pois o ser humano não nasce acabado.


Tudo isto quer dizer que não estamos a construir para o vazio da morte e a nossa meta não é a perda definitiva da nossa identidade pessoal-espiritual.


No Reino de Deus, a pessoa é assumida e optimizada na Comunhão da própria Santíssima Trindade.


O Homem não nasce acabado. Deus criou-nos para que nos criemos mediante decisões, opções e realizações com a densidade do amor.


Cada pessoa está chamada a ser como quiser ir sendo através de uma cadeia de escolhas, opções e projectos de vida.


É verdade que ninguém nos pode realizar nesta tarefa da nossa construção. Mas também é verdade que ninguém se pode realizar sozinho, pois a humanização é uma tarefa de amor.

O Homem sonhado por Deus tem um rosto comunitário. O Livro do Génesis diz Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança, criando-os homem e mulher (Gn 1, 26-27).

Em Comunhão Convosco

Calmeiro Matias



quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

A FIGURA DE MARIA NO NOVO TESTAMENTO-I

I- MARIA COMO MEDIAÇÃO DO ESPÍRITO SANTO

As referências a Maria nos evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas deixam claro este princípio:

A realidade de Jesus Cristo enquanto Messias é obra do Espírito Santo, não dos laços do sangue.
“Enquanto ele falava, uma mulher, levantando a voz do meio da multidão, disse:

“Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!” Ele, porém, retorquiu: “Felizes antes os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 27-28).

Jesus tinha plena consciência de que a sua missão era construir a Família de Deus, a qual não assenta nos elos do sangue, mas nos laços do Espírito Santo.

Eis a razão pela qual Jesus rejeita certas afirmações que parecem opor-se a esta verdade: “Estava ele a falar à multidão, quando apareceram sua mãe e seus irmãos que, do lado de fora, procuravam falar-lhe:

Disse-lhe alguém: “A tua mãe e os teus irmãos estão lá fora e querem falar-te”. Jesus respondeu ao que lhe fez a comunicação: “Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos?”

E indicando com a mão os discípulos, acrescentou: “Aí estão minha mãe e meus irmãos, pois todo aquele que fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12, 46-50).

Os evangelistas São Lucas e São Marcos substituem a expressão “fazer a vontade do Pai” por “Escutar a Palavra de Deus e pô-la em prática” (Lc 8, 20; cf. Mc 3, 31-35).

Em Nazaré, os conterrâneos de Jesus espantavam-se com a sua sabedoria e com os milagres que fazia, pois ele era conhecido deles, bem como a sua família:

“Chegado o sábado, Jesus começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes enchiam-se de espanto e diziam:

“De onde lhe vem tudo isto e que sabedoria é esta? Como é possível realizar tais milagres?
Não é ele o carpinteiro, o filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
E as suas irmãs não vivem aqui no nosso meio? E isto chocava-os” (Mc 6, 2-4).

No relato da visita de Maria a sua prima Isabel, São Lucas apresenta Maria como uma mediação privilegiada para o acontecimento e a missão messiânica de Jesus.

Maria estava grávida de Jesus e a sua prima Santa Isabel estava grávida de João Baptista.
Ao saber que a sua prima estava grávida e já perto do fim do tempo, Maria decidiu visitá-la.

Apesar de ainda estar no seio materno, Jesus já estava cheio da força do Espírito Santo.Quando Maria chega a casa da sua prima, a força do Espírito Santo fez exultar João Baptista ainda no seio de Santa Isabel.

O relato tem um grande significado simbólico. Em primeiro lugar afirma que não foi João que comunicou o Espírito Santo a Jesus quando o baptizou, mas foi Jesus que comunicou o Espírito Santo a João quando o visitou na casa de seus pais.

Depois aparece a figura de Maria como a grande mediação do Espírito do Santo no acontecimento do Messias.

Na verdade, foi Maria quem levou Jesus Cristo, o portador do Espírito Santo, até João Baptista.

Eis o relato de São Lucas: “Por aqueles dias, Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se de modo apressado para as montanhas, a uma cidade da Judeia.

Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o menino saltou-lhe de alegria no seio e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.

Então, erguendo a voz, exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre.

E donde me é dado que venha ter comigo a mãe do meu Senhor? De facto, logo que chegou aos meus ouvidos a tua saudação, o menino saltou de alegria no meu seio” (Lc 1, 39-44).

Não podemos negar o valor simbólico e a beleza deste texto de São Lucas com o qual pretende fazer a ligação entre João Baptista e Jesus Cristo, subordinando a missão de João à missão de Jesus.

No que se refere à figura de Maria, São Lucas aprofunda toda a riqueza teológica associada à mãe do Messias Salvador:

Maria aparece neste relato como uma mulher de Fé: “Feliz de ti que acreditaste”, diz-lhe a sua prima Isabel (Lc 1, 45).

Tal como Abraão, Maria acreditou. Graças à sua fé, Abraão tornou-se o medianeiro das bênçãos de Deus para a Humanidade, como diz o Livro do Génesis:

“Disse o Senhor a Abraão: “Farei de ti um grande povo. Abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos.

Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E na tua descendência todas as famílias da terra serão abençoadas” (Gn 12, 2-3).

Por ser a mãe do Messias e uma mulher de Fé, Maria recebeu a missão de ser uma mediação privilegiada das bênçãos prometidas a Abraão para a Humanidade.

A Maior das bênçãos que o Filho de Maria traz para a Humanidade é o Espírito Santo que faz dos seres humanos membros da Família de Deus.

Eis as palavras de São Paulo na Carta aos Romanos: “Todos os que se deixam guiar pelo Espírito Santo são filhos de Deus.

Vós não recebestes um espírito de escravidão, mas um Espírito de adopção, graças ao qual clamais: “Abba, Pai Querido!” (Rm 8, 14-15).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

A FIGURA DE MARIA NO NOVO TESTAMENTO-II

II- MARIA E O MISTÉRIO DE CRISTO

As maravilhas ligadas aos relatos do nascimento e da infância de Jesus querem significar os planos que Deus tem para ele.

A elaboração destes relatos tem a função pedagógica de apontar para Jesus e para a missão que Deus lhe vai confiar.

Vejamos o encontro com o Simeão, o ancião do templo: Maria foi ao templo para fazer a apresentação do seu filho ao Senhor.

Nesse momento aparece um ancião chamado Simeão, homem justo e piedoso, o qual esperava a consolação de Israel.

Simeão estava cheio do Espírito Santo (Lc 1, 25). Inspirado pelo Espírito Santo, toma o menino nos braços e exclama:

“Agora, Senhor, deixa partir este teu servo em paz, pois de acordo com aquilo que me tinhas revelado, os meus olhos acabam de ver a salvação que prometeste a todos os povos.

Ele é a luz que vem iluminar e tornar-se conhecida das nações. Ele é a glória de Israel teu povo”.
Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que se dizia dele.

Simeão abençoou-os e disse a Maria sua mãe: “Este menino será um sinal de contradição. Será causa de queda e ressurgimento de muitos em Israel.

Uma espada trespassará o teu coração e assim se revelarão os pensamentos de muitos corações” (Lc 2, 29-35).

Maria traz o seu Filho que é também o Filho de Deus, isto é, o rei anunciado que, cheio do Espírito Santo, vem suscitar uma Nova Humanidade de uma terra sem guerras e onde já não há lugar para a violência. Eis as palavras do profeta Isaías:

“Botará um rebento do tronco de Jessé e um renovo brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito de Deus: Espírito de Sabedoria e de entendimento.

Espírito de Conselho e de Fortaleza. Espírito de Ciência e de temor de Deus. Não julgará pelas aparências nem proferirá sentenças apenas pelo que ouviu dizer.

Pelo contrário, julgará os pobres com justiça e com rectidão os humildes da terra. Ferirá os tiranos com os decretos da sua boca e pérfidos com o sopro dos seus lábios.

A justiça será o cinto dos seus rins e a lealdade circundará a sua cintura. Então o lobo habitará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito.
O novilho e o leão comer juntos e um menino os conduzirá. A vaca pastará ao lado do urso e as suas crias repousarão juntas (…).

A criancinha brincará na toca da víbora e o menino desmamado meterá a mão na tocada serpente.

Não haverá mais dano nem destruição em todo o meu Santo Monte, pois a terra estará cheia do conhecimento do Senhor” (Is 11, 1-9).

A anunciação do anjo a Maria é uma composição de São Lucas para dizer uma verdade fundamental:

Jesus, como Messias, é fruto do Espírito Santo e não da carne, do sangue ou do impulso humano.
São Lucas põe na boca do anjo da anunciação uma síntese da primeira profecia messiânica da história, isto é, o oráculo do profeta Natã ao rei David, cerca de mil anos antes de Cristo (2 Sam 7, 12-16).

Esta profecia é a matriz de todas as profecias posteriores da História Bíblica. Agora, o Anjo da Anunciação sintetiza a profecia, apresentando-a em forma de proclamação do nascimento do Messias anunciado e esperado ao longo de tantos séculos.

Eis como São Lucas descreve a anunciação do Anjo: “Ao entrar em casa de Maria, o anjo disse-lhe: “Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo”.

Ao ouvir estas palavras, Maria perturbou-se e perguntava-se sobre o significado de tal saudação.
Disse-lhe o anjo:

“Maria, não temas, pois achaste graça diante de Deus. Hás-de conceber no teu seio e dar á luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e vai chamar-se Filho do Altíssimo.

O Senhor Deus vai dar-lhe o trono de seu pai David. Reinará eternamente sobre a casa de Jacob e o seu reinado não terá fim”.

Maria disse ao anjo: “Como será isso, se eu não conheço homem?” O anjo respondeu-lhe: “O Espírito Santo virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso, aquele que vai nascer é santo e será chamado Filho de Deus” (Lc 1, 28-35).

Toda esta composição bonita e bem elaborada tem como único objectivo afirmar que o Messias é obra do Espírito Santo e não da carne ou do sangue.

Para tornar mais evidente este aspecto, São Lucas sublinha a estranheza de Maria, pondo na sua boca a seguinte questão: “Como será isso se eu não conheço varão?” (Lc 1, 34).

Com este modo de falar São Lucas pretende deixar claro que o protagonista do mistério da Encarnação é o Espírito Santo.

Com o seu jeito maternal de amar ele ia optimizando o amor maternal de Maria, a fim de ela amar o seu Filho com o próprio jeito de Deus amar.

Nesta passagem, Maria aparece como uma mediação especial do Espírito Santo, a fim de se poder realizar o mistério de Jesus Cristo.

Mais tarde, o próprio São Lucas vai dizer que o Espírito Santo consagrou Jesus, a fim de ele realizar a sua missão messiânica dando vista aos cegos, fazendo caminhar os coxos e libertando os prisioneiros (Lc 4, 18-21).

O Livro dos Actos dos Apóstolos diz que Maria só compreendeu de modo perfeito o mistério de Cristo após a ressurreição (cf. Act 1, 14).

É este o sentido profundo do simbolismo do texto das Bodas de Caná no evangelho de São João o qual começa por dizer que três dias depois, Maria tomou parte na festa de umas bodas.

Não é difícil ver aqui uma alusão à experiência pascal de Maria e dos irmãos de Jesus (Jo 2, 1-2).

No evangelho de João Maria é mencionada apenas duas vezes: nas Bodas de Caná (Jo 2, 1-12) e junto à cruz (Jo 19, 25-27).

Maria não é nunca mencionada pelo seu nome. São João chama-lhe sempre a mãe de Jesus.

Mesmo quando os judeus falam dos pais de Jesus, mencionam Jesus pelo seu nome, mas para Maria utilizam a designação de Mãe de Jesus:

“Os judeus puseram-se, então a murmurar contra Jesus pelo facto de ele ter dito: “Eu sou o pão que desceu do Céu” e diziam: “Não é ele Jesus, o filho de José, de quem nós conhecemos o pai e a Mãe?” Como se atreve a dizer agora: “Eu desci do Céu?” (Jo 6, 41-42).

Quando Jesus a fala com Maria, este chama-lhe sempre mulher. Deste modo, São João pretende acentuar que Jesus, enquanto Messias, não é fruto de Maria, mas sim do Espírito Santo.

Eis o testemunho de São João Baptista: “Eu não o conhecia, mas foi para ele se manifestar a
Israel que eu vim baptizar com água.

“Eu vi o Espírito Santo que descer do Céu como uma pomba e permanecer sobre ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a baptizar é que me disse:

“Aquele sobre quem vires descer o Espírito e poisar sobre ele é o que baptiza com o Espírito Santo.

Pois bem: eu vi e dou testemunho de que este é o filho de Deus” (Jo 1, 31-34). Maria foi a grande mediação do Espírito Santo na medida em que modelou o coração e a personalidade de Jesus, a fim de ele realizar a sua entrega.

Mas foi o Espírito Santo quem o capacitou para que essa entrega fosse incondicional. No evangelho de São Mateus, Jesus convida os discípulos a aprenderem dele que é manso e humilde de coração” (Mt 11, 29).

Este coração de Jesus foi em grande parte modelado pela acção maternal de Maria. De facto, os meninos judeus, no tempo de Jesus, ficavam ao cuidado exclusivo das mães até aos cinco anos de idade.

É o período básico para a estruturação das linhas mestras da personalidade humana! No relato da perda do Menino Jesus no Templo, ao falar do reencontro de Jesus com os seus pais, São Lucas, tal como fez São João no relato das bodas de Caná, utiliza a simbologia dos três dias.

Após uma grande aflição, os pais de Jesus encontram-no três dias depois na casa do Pai. Com esta simbologia, São Lucas quer dizer que Maria só compreendeu de modo pleno o mistério de Cristo após a ressurreição.

Eis as palavras de São Lucas: “Os pais de Jesus iam todos os anos a Jerusalém, pela festa da Páscoa.

Quando Jesus atingiu os doze anos, os pais de Jesus subiram com ele à festa, segundo o seu costume.

Terminados esses dias, regressaram a casa e o menino ficou em Jerusalém, sem que os pais o se apercebessem.

Pensando que ele se encontrava na caravana, fizeram um dia de viagem e começaram a procurá-lo entre os parentes e conhecidos.

Não o tendo encontrado, voltaram a Jerusalém, à sua procura. Três dias depois encontraram-no no templo, sentado entre os doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas (…). Ao vê-lo, os seus pais ficaram assombrados e sua mãe disse-lhe:

“Filho, porque nos fizeste isto? Olha que teu pai e eu andávamos aflitos à tua procura!” Ele respondeu-lhes: “Porque me procuráveis?” Não sabíeis que devia estar em casa de meu Pai?

Mas eles não compreenderam as palavras que Jesus lhes disse” (Lc 2, 41-49). Nas entrelinhas deste texto de São Lucas há uma alusão sobre a descoberta que Maria fez do seu Filho no momento da sua experiência pascal.

A experiência pascal de Maria e dos irmãos de Jesus é afirmada de modo solene por São Paulo quando descreve em síntese as aparições do Senhor ressuscitado (1 Cor 15, 7).

São Paulo nomeia Tiago em vez de Maria, mas isso deve-se ao facto de Maria ser uma mulher e as mulheres, no mundo judaico daquela época, não poderem servir como testemunha.

Pôr uma mulher a testemunhar a ressurreição de Jesus, seria tirar credibilidade ao facto. É por esta mesma razão que, no evangelho da infância de São Mateus, o anjo só fala com José.

Na verdade, São Mateus escreve o seu evangelho a pensar nos judeus e por isso se afasta de São Lucas na questão das aparições do anjo.

Por outras palavras, como a mulher não era considerada uma testemunha credível no entre os judeus, o anjo da anunciação, em São Mateus, nunca fala com Maria, mas apenas com José (Mt 1, 20; 2, 13).

No evangelho de São Lucas, pelo contrário, o anjo da anunciação só fala com Maria. Eis o relato de São Mateus:

“Andando José a pensar nisto, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse:
“José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo.

Ela dará à luz um filho ao qual darás o nome de Jesus, pois ele salvará o povo dos seus pecados.
Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o Senhor disse pelo profeta:

“Eis que a virgem conceberá e dará á luz um filho, e há chamá-lo Emanuel, que quer dizer Deus connosco” (Mt 1, 22).

No evangelho da infância de São Mateus o anjo falou várias vezes em sonhos com José: Na fuga para o Egipto (Mt 2, 13-15). No regresso do Egipto para a terra de Judá (Mt 2, 19-21). E por fim a ida para Nazaré (Mt 2, 22-23).

Não restam dúvidas de que a pessoa e a missão de Maria teriam tido um realce muito maior se o contexto cultural da época não pusesse tantas restrições à mulher.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

domingo, 25 de Outubro de 2009

O PARAÍSO COMO REALIDADE EM CONSTRUÇÃO-I



I-JESUS CRISTO É A ÁRVORE DA VIDA

“O Senhor Deus disse: “Eis que o Homem se tornou como um de nós quanto ao conhecimento do bem e do mal.

Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da Árvore da Vida e, comendo dele, viva para sempre.

Então, o Senhor Deus expulsou Adão do Jardim do Éden (…). Depois de o ter expulsado colocou a oriente do jardim uns Querubins com uma espada flamejante, a fim de guardarem o caminho da Árvore da Vida” (Gn 3, 22-24).

De acordo com a linguagem simbólica do livro do Génesis, havia no centro do Paraíso duas árvores importantes: a árvore do conhecimento do bem e do mal e a Árvore da Vida.

O conhecimento do bem e do mal é, naturalmente, a ciência humana com as suas ambiguidades quando não é iluminada pela sabedoria do Espírito de Deus.

Desvinculada da Sabedoria de Deus, a ciência humana facilmente conduz para os caminhos da morte.

Ao comerem o fruto desta árvore, Adão e Eva descobrem que estão nus, isto é, apercebem-se de que estão enredados na incapacidade de sucesso.

Por seu lado, a Árvore da Vida faz germinar a Vida Eterna no coração dos que comem os seus frutos.

O fruto da Árvore da Vida é o Espírito Santo. As pessoas que comem o fruto da Árvore da Vida descobrem que estão revestidos com a veste da Salvação, diz o Livro do Apocalipse:

“E vi descer do Céu, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, preparada, qual noiva vestida e adornada para o seu esposo” (Apc 21, 2).

O profeta Isaías vê o Messias como um rebento cheio de vida a emergir. Este rebento tem a plenitude do Espírito Santo, isto é, tem a plenitude da Vida em comunhão com Deus:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé, e um renovo brotará das suas raízes. Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor:
Espírito de Sabedoria e Entendimento.
Espírito de Conselho e Fortaleza.
Espírito de Ciência e Temor de Deus” (Is 11, 1-2).

O Livro do Génesis diz que Deus criou o Homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,26-27).

A História humana terá sucesso na medida em que os seres humanos permitam que o Espírito Santo faça história com eles.

Por outras palavras, na medida em que o Espírito Santo seja um protagonista da História humana a sabedoria de Deus tornará óptimo o fruto da ciência humana, realizando maravilhas.

Como o ser humano só podia ser livre decidindo e optando, no Paraíso tinha de haver as duas árvores, a fim de o Homem optar.

Foi por esta razão que Deus colocou ao lado da Árvore da Vida a Árvore do conhecimento do bem e do mal.

Adão cedeu à tentação de se colocar em lugar de Deus. A tentação é sempre uma insinuação subtil, convidando o Homem a agir em sentido oposto à Sabedoria que o Espírito Santo lhe propõe.

E o Paraíso foi fechado. A Humanidade foi introduzida por Adão no caminho do Malogro e do fracasso.

Para ultrapassar esta rotura do Homem em relação ao plano de Deus, o próprio Deus sonhou o plano da Encarnação, fazendo que o divino se enxerte no humano, afim de este ser divinizado mediante a incorporação na Família de Deus.

Através de muitas intervenções amorosas, Deus começa a fazer planos para restaurar o Paraíso, fazendo que a Humanidade tenha acesso ao fruto da Árvore da Vida.

Como Jesus disse ao Bom Ladrão na Sexta-feira Santa, o Paraíso ficou ao alcance da Humanidade.

Eis as palavras que Jesus dirige ao Bom Ladrão, no momento de morrer e ressuscitar sobre a cruz:

“Em verdade te digo: hoje mesmo estarás comigo no Paraíso” (Lc 23, 43). A grandeza de Jesus Cristo não se esgota na sua dimensão humana. Por outras palavras, em Cristo encontram-se unidos de modo orgânico o melhor de Deus e o melhor do Homem.

Isto quer dizer que a raiz mais profunda do mistério de Cristo é o próprio mistério da Santíssima Trindade (cf. Jo 1, 12-14).

Em Jesus ressuscitado a Humanidade passou a fazer parte da Árvore da Vida. Todos nós, diz Jesus no evangelho de São João, somos ramos de uma videira cuja cepa é ele próprio (Jo 15, 1-7).

A nossa vida será fecunda na medida em que permaneçamos como ramos unidos à cepa (Jo 15, 4-5).

Ao ressuscitar, Jesus abriu-nos as portas do Paraíso e nós ficamos com acesso directo ao fruto da Árvore da Vida.

Na verdade, o Espírito Santo é a seiva vivificante que vem da cepa para nós que somos os ramos.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O PARAÍSO COMO REALIDADE EM CONSTRUÇÃO-II

II-O PARAÍSO É A META DA HISTÓRIA

Podemos dizer que o relato do Livro do Génesis sobre o Paraíso é uma alegoria sobre o plano sonhado por Deus para a plenitude dos tempos.

Isto significa que não se trata de uma realidade existente num princípio mítico, mas da plenitude que aguarda a Humanidade:

“Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho nascido de uma mulher (…), a fim de recebermos a adopção de filhos” (Gal 4, 4-6).

A Carta aos Romanos diz que Jesus Cristo é o Novo Adão (Rm 5,17). Como cabeça da Humanidade reconciliada com Deus, ele é a Árvore da Vida que nos dá o fruto da Vida Eterna:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a Vida Eterna e eu hei-de ressuscitá-lo no último dia.

Na verdade, a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é uma verdadeira bebida.
Quem come a minha carne a bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele.

Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também o que me come viverá por mim” (Jo 6, 54-57).

Mas São João tem o cuidado de acentuar que este mistério da comunhão orgânica com Cristo ressuscitado nada tem de antropofagia:

“E se virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? O Espírito é que dá vida, a carne não presta para nada.

As palavras que vos disse são Espírito e Vida” (Jo 6, 62-63). A carne de Jesus ressuscitado é a sua realidade humana glorificada a qual forma um todo orgânico com a Humanidade inteira.

O sangue do Cristo glorioso é a seiva da Árvore da Vida Eterna, isto é, o Espírito Santo. Com Jesus ressuscitado, a Humanidade é assumida no paraíso e incorporada na família de Deus.

Deste modo, o Paraíso, sonhado pelo livro do Génesis, torna-se finalmente realidade. Os que são alimentados pelo fruto da Árvore da Vida, isto é, o Espírito Santo, tomam parte na Vida Eterna, sendo organicamente incorporados na Família de Deus, como diz São Paulo (Gal 4, 4-7).

O Livro do Apocalipse diz que no Paraíso, os eleitos são todos alimentados pelo do fruto da Árvore da Vida:

“Felizes os que lavam as suas vestes, para poderem entrar pelas portas da Cidade e terem acesso à Árvore da Vida” (Apc 22, 14).

A Vida Nova em Cristo não é uma questão de simples sujeição a um código ético com normas bem estruturadas.

Viver em comunhão com Cristo significa estar organicamente unido a Jesus ressuscitado. O princípio animador desta relação e comunhão com o Senhor ressuscitado é o Espírito Santo.

A comunhão orgânica com Cristo é um dom gratuito de Deus. Ponhamos um exemplo: comparemos a Humanidade ferida pelo pecado a um limoeiro doente e envelhecido pela ferrugem.

Apesar de ser um limoeiro de alta qualidade, agora, carcomido pela ferrugem, dá frutos de péssima qualidade.

O proprietário do limoeiro pensou nas hipóteses que tinha para salvar o limoeiro. Foi então que lhe surgiu a ideia de cortar um pequeno rebento que ainda se mantinha são e enxertá-lo numa laranjeira jovem e robusta.

Uma vez enxertado, o rebento do limoeiro, sem deixar de ser limoeiro, recebe a seiva da laranjeira e num curto espaço de tempo começa a dar limões de excelente qualidade.

Isto quer dizer que a seiva da laranjeira optimizou o limoeiro e os seus frutos. Foi isto que aconteceu à Humanidade pelo mistério da Encarnação, como diz Jesus com o exemplo da videira:

“Permanecei em mim, que eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim acontecerá também convosco, se não permanecerdes em mim.

Eu sou a videira e vós os ramos. Quem permanece em mim e eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O PARAÍSO COMO REALIDADE EM CONSTRUÇÃO-III

III-JÁ TEMOS ACESSO AO FRUTO DA ÁRVORE DA VIDA

Podemos dizer que a Encarnação é o enxerto do divino no humano, a fim de optimizar a natureza humana, capacitando-a para dar frutos de vida eterna.

Isto significa que a Humanidade ficou enxertada na Árvore da Vida cujo tronco é Jesus Cristo e cuja raiz é a comunhão da Santíssima Trindade.

Esta união orgânica que nos liga a Cristo é, na verdade, uma Nova Criação, diz São Paulo: “Se alguém está em Cristo, é uma nova criação. O que era velho passou. Eis que tudo se fez novo!

Tudo isto vem de Deus que, em Cristo, nos reconciliou consigo, e nos confiou o ministério da reconciliação.

De facto, foi Deus quem reconciliou o mundo consigo, em Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação” (2 Cor 5, 17-19).

Neste mistério da união orgânica do Homem com Cristo, o Espírito Santo é o sangue de Cristo a circular nas artérias do nosso ser espiritual alimentando a vida divina em nós.

É o Espírito Santo que nos revela e faz compreender o plano de Deus para nós: “Com efeito, quem, entre os homens, conhece o que vai no coração da pessoa, a não ser o próprio espírito do homem.

Assim, também, ninguém conhece o plano de Deus, a não ser o Espírito de Deus que nos faz compreender o dom que Deus amorosamente nos concedeu” (1 Cor 2, 11-12).

O evangelho de São João vai nesta mesma linha quando fala da vinda do Espírito Santo após a ressurreição de Cristo:

“Mas quando vier o Espírito de Verdade, Ele vos guiará para a verdade total. Ele não fala de si mesmo, pois apenas diz o que ouve e dir-vos-á o que está para vir” (Jo 16, 13).

É o Espírito que, no nosso interior, nos revela a nossa condição de filhos de Deus Pai e irmãos do filho de Deus (Rm 8, 14-17).

É pelo Espírito Santo que se vai robustecendo o homem espiritual que levamos em gestação dentro de nós.

O evangelho de São João diz que temos de nascer de novo pelo Espírito Santo, pois o que nasce da carne é carne e o que nasce do Espírito é espírito (Jo 3, 6).

Trata-se, portanto, de uma realidade a emergir no interior do homem. Por outras palavras, o nosso ser interior é espiritual e forma-se dentro do nosso ser exterior como o pintainho se forma dentro do ovo.

O homem interior vai-se robustecendo, graças a acção do Espírito Santo, diz a segunda carta aos Coríntios:

“Por isso não desfalecemos. Mesmo que em nós o homem exterior vá caminhando para a ruína, o homem interior renova-se dia após dia” (2 Cor 4, 16).

É esta a dinâmica da vida nova em Cristo que cresce e se fortalece de modo gradual e progressivo graças à acção do Espírito Santo.

Esta vida a crescer dá excelentes frutos, diz a Carta aos Gálatas: “Mas os frutos do Espírito Santo são amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, gentileza e auto controle” (Gal 5, 22-23).

Como diz o evangelho de São João, estes frutos resultam do facto de sermos ramos unidos à cepa que é Jesus Cristo:

“Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Os ramos não podem dar fruto só por si, mas serão fecundos na medida em que estiverem unidos à videira.

Do mesmo modo vós só podeis dar fruto se estiverdes unidos a mim” (Jo 15, 4-5). E é assim que nós temos acesso à Árvore da Vida e somos beneficiados pelo fruto da Vida Eterna.

Vale a pena acolher a Sabedoria que nos vem do ensinamento da Carta aos Efésios quando diz:
“Não vos embriagueis com vinho, pois isso conduz à luxúria.

Pelo contrário, deixai que o Espírito Santo encha os vossos corações” (Ef 5, 18).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias



quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

DEUS MOLDOU-NOS PARA A VIDA ETERNA-I

I-A VIDA ETERNA COMO DOM DE DEUS

Deus não é uma realidade histórica, mas as pessoas divinas estão empenhadas na História do Homem.

Na sua ternura infinita, Deus sonhou a Humanidade para ela tomar parte na Vida Eterna com Deus.

Eis o que Jesus diz no evangelho de São João: “Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu Filho, para que o teu Filho manifeste também a tua glória, dando a Vida Eterna a todos os que lhe entregaste.

Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, Pai, como único Deus verdadeiro e a u
Jesus Cristo a quem enviaste” (Jo 17, 1-3).

A Vida Eterna é o grande dom que Deus nos oferece em Cristo. Eis como São Paulo vê o dom da vida eterna em Jesus Cristo:

“Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, em ordem à fé dos eleitos de Deus e ao conhecimento da verdade.

Assim é fortalecida a esperança na vida eterna, prometida desde os tempos antigos pelo Deus que não mente.

Este mistério foi manifestado no devido tempo pela pregação da qual fui incumbido por mandato de Deus, nosso Salvador” (Tit 1, 1-3).

A vida eterna é um dom gratuito que Deus nos proporciona pela acção do Espírito Santo:

“Mas quando se manifestou a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para connosco, ele salvou-nos.

Isto não se deve às nossas obras de justiça, mas sim à sua misericórdia. Deu-nos a possibilidade de nascer de novo através da renovação do Espírito Santo que ele derramou abundantemente sobre nós por Jesus Cristo nosso Salvador.

Deste modo, uma vez justificados pela sua graça, vamo-nos tornando herdeiros da vida eterna que já vivemos na esperança” (Tit 3, 4-7).

A vida eterna é a Festa da Família de Deus. O Livro do Apocalipse descreve de modo muito bonito a vida eterna como comunhão de Deus com a Humanidade:

“Vi então um Novo Céu e uma Nova Terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia.

E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém, já preparada, qual noiva adornada para o seu esposo.

E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: “Esta é a morada de Deus entre os homens.
Ele habitará com os seres humanos e estes serão o seu povo.

Deus estará com eles e será o seu Deus, enxugando todas as lágrimas dos seus olhos. Não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor, pois as primeiras coisas passaram”.

O que estava sentado no trono disse: “Eu renovo todas as coisas!” E acrescentou: “Escreve, porque estas palavras são verdadeiras. Eu sou o Alfa e o Ómega, o Princípio e o Fim!

Ao que tiver sede eu lhe darei a beber gratuitamente da nascente da Água da Vida. O que vencer receberá estas coisas como herança. Eu serei o seu Deus e ele será o meu filho!” (Apc 21, 1-7).

A vida eterna é uma dinâmica relacional e interactiva e não algo que uma pessoa possa possuir de modo isolado.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

DEUS MOLDOU-NOS PARA A VIDA ETERNA-II

II-ENCARNAÇÃO E VIDA ETERNA

O evangelho de São João diz que a Encarnação é a possibilidade de possuirmos a vida eterna:

“Aos que o receberam, aos que crêem nele, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.

Estes não nasceram dos laços do sangue. Também não nasceram de um impulso da carne nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, essa glória que ele possui como Filho Unigénito do Pai, cheio de Graça e Verdade” (Jo 1, 12-14).

A Vida Eterna resulta da nossa incorporação na Família de Deus cujo resultado é a nossa divinização.

A Primeira Carta de São João diz que a dinâmica da vida eterna é o amor: “Nós sabemos que passámos da morte para a vida, porque amamos os irmãos.

Quem não ama permanece na morte. Todo o que tem ódio ao seu irmão é homicida e vós bem sabeis que nenhum homicida tem dentro de si a Vida Eterna” (1 Jo 3, 14-15).

A Vida Eterna é um dom que nos vem de Deus através de Jesus Cristo ressuscitado. Eis o que diz a Primeira Carta de São João: “Deus deu-nos a vida eterna, pois esta vida está no seu Filho.

Quem tem o Filho tem a Vida, quem não tem o Filho não tem a Vida” (1 Jo 5, 11-12). A Vida Eterna atinge a sua plenitude no Reino de Deus, mas está a emergir na História.

Graças ao acontecimento histórico de Jesus Cristo, a pessoa vai sendo divinizada na medida em que se humaniza.

Jesus propõe-nos um jeito novo de viver, o qual nos possibilita uma interacção nova com o Espírito Santo, condição para atingirmos o conhecimento de Deus.

O evangelho de São João diz que a vida eterna consiste em conhecer a Deus: “Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem tu enviaste” (Jo 17, 3).

Conhecer, na Bíblia, significa interagir de modo amoroso e fecundo. O conhecimento de Deus e de Jesus Cristo implica uma união orgânica que é a fonte de uma nova qualidade de vida:

“Tudo me foi entregue por meu Pai e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11, 27).

Conhecer Deus é, pois, interagir de modo amoroso e fecundo com as pessoas divinas. Este conhecimento é algo que só pode acontecer pela acção do Espírito Santo, como diz o evangelho de São Lucas:

“Nesse mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria sob a acção do Espírito Santo e disse:

“Bendigo-te ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondestes estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos.

Sim, Pai, porque foi esta a tua vontade e o teu agrado” (Lc 10, 21). Como este texto nos indica, o conhecimento de Deus não é uma questão teórica, mas uma experiência viva feita no Espírito Santo.

A Primeira Carta de São João diz-nos que o conhecimento de Deus é uma questão de amor:

“Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus. Todo aquele que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus.

O que não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus á amor” (1 Jo 4, 7-8). Depois acrescenta: “A Deus nunca ninguém o viu, mas se nos amarmos, Deus permanece em nós e o seu amor chega à perfeição em nós” (1 Jo 4, 12).

A razão de isto ser assim é porque Deus é amor, como diz a Primeira Carta de São João: “Deus é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16).

Jesus disse a Filipe que o seu jeito de ser e amor são a revelação do jeito de ser e amar do Pai:
“Há tanto tempo que estou convosco e não me ficastes a conhecer, Filipe?

Quem me vê, vê o Pai. Como é que ainda me dizes mostra-nos o Pai?” (Jo 14, 8-9). O grande guia na caminhada do conhecimento de Deus é o Espírito Santo.

Não por nos comunicar muitos conceitos, mas por nos conduzir para atitudes de amor idênticas às de Cristo:

“Fui-vos dizendo estas coisas enquanto estava convosco. Mas o Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, esse é que vos ensinará tudo, recordando-vos as coisas que vos disse” (Jo 14, 25-26).

Jesus disse aos discípulos que o Espírito Santo tem a tarefa de completar a sua missão, conduzindo-os para a Verdade plena:

“Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis compreender por agora. Mas quando vier o Espírito da Verdade ele há-de guiar-vos para a verdade completa” (Jo 16, 12-13).

A Verdade plena é o conhecimento de Deus que culmina numa perfeita interacção amorosa e fecunda.

No evangelho de São Mateus, Jesus diz que não há conhecimento de Deus que não passe pelo amor aos irmãos:

“Então os justos vão responder a Jesus: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?

Quando te vimos peregrino e te recolhemos ou nu e te vestimos? Quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?

Então o rei responder-lhes-à: “Em verdade em verdade vos digo: sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 37-40).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

DEUS MOLDOU-NOS PARA A VIDA ETERNA-III

III-ESPÍRITO SANTO E VIDA ETERNA

No coração do nosso amor acontece sempre a interacção do Espírito Santo a optimizá-lo e a unir-nos de modo orgânico com Cristo.

Eis as palavras de Jesus no evangelho de São Mateus: “Em verdade vos digo: sempre que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes” (Mt 25, 40).

Podemos dizer que o conhecimento de Deus é uma vivência que passa pelo jeito de agir face ao amor.

Isto significa que a Vida Eterna é algo que já está a emergir no nosso coração, graças ao modo como nos deixamos conduzir pelos apelos do amor.

Jesus disse à Samaritana que o dom da Salvação acontece no interior da pessoa, graças ao dinamismo da Água Viva, isto é, o Espírito Santo que está no nosso interior:

“Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é aquele que te está a pedir água, tu é que lhe pedirias e ele dar-te-ia uma Água Viva” (Jo 4, 10).

O profeta Jeremias denuncia a infidelidade do povo que ousa voltar as costas ao Deus que é a fonte da Água Viva.

São Paulo também utiliza a simbologia da Água para falar do Espírito Santo: “Todos nós fomos baptizados num só Espírito, a fim de formarmos um só corpo, tanto judeus como gregos, escravos ou livres.

Todos bebemos de um mesmo Espírito” (1 Cor 12, 13). Falando com a Samaritana, Jesus diz-lhe que á Água Viva não é como a água do poço de Jacob, símbolo da Antiga aliança.

A água desse poço, não mata a sede de modo definitivo: “Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede.

Mas aquele que beber da Água que eu lhe der, nunca mais terá sede, pois esta Água converter-se-à nele em Fonte de Vida Eterna” (Jo 4, 13-14).

O profeta Ezequiel diz que o Messias vem conduzir as pessoas para a autenticidade de vida, graças à acção do Espírito Santo:

“Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Porei o meu Espírito no vosso íntimo, fazendo que sejais fiéis às minhas leis e preceitos” (Ez 36, 26-27).

Na Carta aos Efésios, São Paulo convida os cristãos a não se embriagarem com vinho, mas a encher-se do Espírito Santo (Ef 5, 18).

O profeta Isaías, diz que o Espírito Santo é uma água que mata a sede e faz desabrochar a vida em abundância:

“Vou derramar água sobre o que tem sede e fazer correr rios sobre a terra árida. Vou derramar o meu Espírito sobre a tua posteridade e a minha bênção sobre os teus descendentes.

Estes crescerão como plantas junto das fontes e como salgueiros junto das águas correntes” (Is 44, 3-4).

São Paulo reconhece que Jesus ressuscitado iniciou os tempos da abundância do Espírito Santo.

Na Carta aos Romanos ele diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

O Livro dos Actos dos Apóstolos vê no acontecimento do Pentecostes os tempos da plenitude do Espírito, tal como os profetas tinham anunciado.

Face ao entusiasmo e alegria dos apóstolos, os judeus acusavam-nos de estar embriagados.

Os Apóstolos respondem dizendo que a sua exultação é a realização do oráculo do profeta Joel:

“Não, estes homens não estão embriagados como imaginais, pois apenas vamos na terceira hora do dia.

Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel” (Act 2, 15-16). Na verdade, o profeta Joel tinha anunciado que a chegada do Messias daria início aos tempos da abundância do Espírito Santo.

Eis as palavras de Joel: “Depois disto, derramarei o meu Espírito sobre toda a Humanidade.

Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão e os vossos anciãos terão visões. Também derramarei o meu Espírito sobre os vossos servos e servas naqueles dias” (Jl 3, 1-2).

A Vida Eterna emerge no nosso interior pela acção do Espírito Santo, diz São Paulo na Carta aos Gálatas:

“Quem semear na carne, da carne colherá a corrupção. Mas quem semear no Espírito do Espírito Santo colherá a Vida Eterna” (Ga 6, 9).

O profeta Isaías disse que o Espírito Santo é fonte da Salvação no nosso íntimo: “Cheios de alegria tirareis água das fontes da Salvação” (Is 12, 3).

Graças ao facto de Deus estar a fazer história com o Homem, a Vida eterna está a emergir no nosso coração.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

domingo, 18 de Outubro de 2009

MEDITANDO SOBRE O SER E O AGIR DE DEUS-I

I-O DEUS QUE SE REVELA

Deus não é uma fórmula matemática nem uma espécie de tabuada para aprendermos de memória.

Na Bíblia, Deus define-se como aquele que é ou seja, aquele que está sempre a ser. Eis as palavras do Livro do Êxodo:

“Deus disse a Moisés: “Eu sou aquele que sou”. E acrescentou: “Dirás aos filhos de Israel: “ O Eu Sou manda-me a vós!” (Ex 3, 14).

Se Deus é um “Eu Sou”, isto quer dizer que é um verbo sempre a conjugar-se e não um substantivo abstracto e estático.

Se Deus é um “Eu Sou”, então ele é “um sempre presente” e nunca foi ou será “um passado”.

Olhando Deus a partir do ponto máximo da revelação, isto é, o Novo Testamento, nós verificamos que Deus é não apenas um sujeito infinito, mas também uma comunidade familiar de três pessoas.

Podemos dizer que a Divindade é uma emergência permanente de três pessoas de perfeição infinita em convergência total de comunhão amorosa.

A Santíssima Trindade é, na verdade, o ponto de chegada, não o ponto de partida. Deus revelou primeiro a sua unicidade de natureza: Há um só Deus.

Mas à medida que o seu rosto ia definindo melhor, a realidade de Deus revela-se como comunhão de amor.

Isto quer dizer que o Deus da revelação não é um sujeito isolado, mas uma comunhão de pessoas.
No mistério da Trindade Divina, nenhuma das pessoas precede a outra.

Deus Pai encontra-se como Pai ao estabelecer uma reciprocidade amorosa com o Filho Eterno de Deus.

O Filho é gerado no seu jeito filial de amar na relação que em que Deus Pai se encontra como amor paternal.

A realidade fundamental de Deus é uma dinâmica relacional na qual as pessoas se possuem e encontram em reciprocidade amorosa.

É nesta dinâmica que o Filho de Deus é gerado, mas não procriado. Na Divindade há geração eterna, mas não procriação.

Por isso podemos dizer que Deus é uma emergência permanente de três pessoas de perfeição infinita em total convergência de comunhão amorosa.

Nesta reciprocidade amorosa do Pai com o Filho, as duas pessoas são gerados em simultâneo com dois jeitos diferentes de amar: amor paternal e amor filial.

O Espírito Santo é o amor maternal de Deus. Encontra-se activo na interacção amorosa inspirando, e sugerindo sempre novos matizes à reciprocidade amorosa de Deus Pai com o Filho Eterno de Deus.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

MEDITANDO SOBRE O SER E O AGIR DE DEUS-II

II-DEUS É FIEL, VERDADEIRO E SEMPRE NOVO

Se o amor de Deus Pai é uma novidade constante, então o Filho de Deus está constantemente a ser gerado.

Deus é um verbo (acção, acontecimento, dinamismo) no presentre: “Eu Sou”. Isto quer dizer que Deus é um novidade constante, a acontecer no presente.

Face à novidade constante do amor de Deus Pai, o Filho Eterno de Deus exprime o seu amor filial de maneira sempre nova.

Deus Pai ama com amor ágape, isto é, como doação incondicional que não é motivada por qualquer outra doação prévia.

Isto quer dizer que o amor paternal de Deus Pai não é precedido de qualquer outro estímulo amoroso.

Por seu lado, o Espírito Santo, com seu jeito maternal de amar, é o coração, isto é, o princípio animador da comunhão trinitária.

A Primeira Carta de São João diz que Deus é amor e que o modo de o conhecermos em profundidade é começarmos a amar (1 Jo 4, 7-8).

Agora podemos compreender melhor como a oração ao jeito de Cristo tem de ser sempre uma oração feita no Espírito Santo.

E isto é possível, diz São Paulo, porque o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações.

Eis as palavras da Primeira Carta de São João: “Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus.

Quem não ama não pode conhecer a Deus, pois Deus é amor” (1 Jo 4, 7-8). Estas palavras significam que o conhecimento de Deus é, afinal, uma actividade do coração.

O homem que se mantém fiel à Aliança de Deus receberá como prémio as bênçãos prometidas e a vida em plenitude da vida:

“O Senhor respondeu: muito bem, servo bom e fiel! Uma vez que foste fiel em pequenas coisas, vou conceder-te domínio sobre coisas grandes.

Vem e partilha a felicidade do teu Senhor” (Mt 25, 23). A fidelidade de Deus, diz a Carta aos Hebreus, manifesta-se no facto de ele manter inalterável a sua Aliança e o seu amor para connosco.

“Conservemo-nos firmes na esperança, pois aquele que fez a promessa é fiel” (Heb 10, 23). A fidelidade de Deus é maior que o nosso pecado. Por outras palavras, nem o pecado dos homens consegue anular a fidelidade de Deus, como diz o profeta Jeremias:

“Israel e Judá não foram esquecidos pelo Deus Altíssimo, apesar de a sua terra estar cheia de culpa e iniquidade diante do Santo de Israel” (Jer 51, 5).

Apesar das nossas infidelidades, diz São Paulo, Deus continuará a ser fiel, pois não pode negar-se a si mesmo (2 Tim 2, 13).

Se nós estamos salvos, isso deve-se à fidelidade de Deus, diz a Segunda Carta aos Coríntios:
“Aquele que nos confirma juntamente convosco em Cristo é Deus.

Foi ele que nos marcou com o seu selo, colocando nos nossos corações o penhor do Espírito Santo” (2 Cor 1, 21-22).

Chocado com a infidelidade do Povo, o profeta Jeremias anuncia uma Nova Aliança, a qual não assenta em leis ou preceitos, mas na comunicação do Espírito Santo:

Não será como a aliança que estabeleci com seus pais, quando os tomei pela mão para ao fazer sair da terra do Egipto, Aliança que eles não cumpriram, apesar de eu ser o seu Deus, oráculo do Senhor.

Esta será a Aliança que vou estabelecer naqueles dias com a casa de Israel, oráculo do Senhor:
imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo.

Ninguém precisará de ensinar o seu próximo dizendo: conhece o Senhor, pois todos me conhecerão, desde o maior ao mais pequeno.

A todos perdoarei as suas faltas e não mais me lembrarei dos seus pecados” (Jer 31, 31-34). A vontade de Deus para nós varia, não porque Deus seja inconstante ou arbitrário, mas porque nós somos seres em construção.

Por outras palavras, Deus interage com as pessoas de modo adequado à realização e crescimento de cada uma.

É muito perigoso brincar com Deus. Não porque Deus se vingue, mas essa atitude é o sinal de que a pessoa já entrou no caminho do malogro e do fracasso.

O Novo Testamento diz que Jesus estava permanente em sintonia com a vontade do Pai:

“O meu alimento, diz ele no evangelho de São João, é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34).

E ainda: “Desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade de quem me enviou.

E a vontade daquele que me enviou é esta: que eu não perca nenhum dos que ele me deu, mas que os ressuscite no último dia.

Sim, esta é a vontade de meu Pai: quem vê o Filho e acredita nele tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 38-40).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias


quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

DO DEUS VINGATIVO AO DEUS PAI AMOROSO-I

I-DO DEUS DA PUNIÇÃO AO PAI DO PERDÃO

Ao aperceber-se de que o pecado contraria o projecto de Deus, os profetas bíblicos começam a falar da vingança de Deus.

Esta acção vingativa de Deus gera um estilo literário próprio a que se chamou o Dia da Ira, para significar o dia da vingança de Deus.

Associado ao dia da ira os profetas foram forjando outro conceito fundamental: o resto fiel de Iavé.

A vingança de Deus no dia da ira será universal e destrutiva. Só o resto de Iavé, isto é, os que viveram fiéis à Aliança, escaparão ao castigo trágicodo dia da ira.

Com este modelo, os profetas produdiram textos apocalípticos muito significativos que marcaram não apenas o Antigo Testamento, mas também muitos textos do Novo.

Subjacente a estes textos estavaa ideia de que Deus é justo e, portanto, não pode deixar de purificar a Humanidade das suas maldades.

Segundo os textos do dia da da ira, com a sua intervenção punitiva Deus vai pôr fim à existência do pecado, destruindo a sua fonte, isto é, os pecadores.

Nesse dia a Humanidade será destruida, escapando apenas o pequeno resto dos justos. Eesse dia será de destruição. Os pecadores serão destruídos sem piedade. Eis as palavras do profeta Amós:

“Ai dos que chegarem a ver o dia do Senhor. Será um dia de trevas e não de luz. É como um homem que está a fugir de um leão e surge-lhe pela frente um urso.

É como se um homem, ao regressar a sua casa, apoiasse a mão na parede e fosse mordido por uma serpente.

O dia do Senhor será de trevas e não de luz, de escuridão e não de claridade” (Am 5, 18-20).
O profeta Isaías vê o dia da ira como um dia de terror e destruição:

Estremecei porque o dia do Senhor está perto. Virá como o açoite do Deus omnipotente (Is 13, 6).

Além disso, acrescenta o profeta Joel, o dia do Senhor está muito próximo: “Ai aquele dia! O dia do Senhor está muito próximo. Virá como uma terrível destruição operada pela força devastadora de Deus.

O Sol e a Lua ficarão escuros e as estrelas já não brilharão” (Jl 1, 15-16; cf. 2,1). O dia do Senhor é, pois, o dia do julgamento universal: Muito em breve as multidões vão juntar-se no vale do julgamento, pois o dia do Senhor está perto” (Jl 4,14).

O profeta Isaías diz que o dia do Senhor será um dia de ira e vingança: “A terra embriagar-se-á de sangue e ficará coberta de gorduras de animais, pois esse é o dia da vingança do Senhor” (Is 34, 8).

Por detrás desta perspectiva aterradora vai surgindo um cenário de esperança: Após a purificação operada pelo castigo Deus vai suscitar uma Nova Humanidade, restaurando o Paraíso primordial.

O Espírito de Deus vai recriar o Homem, dando-lhe um coração novo capaz de optar pela paz e a justiça e de ser fiel `Aliança do seu Deus.

O resto fiel é o grupo de justos com o qual Deus vai renovar a sua Aliança, dando origem a uma Nova Humanidade.

Será algo parecido ao resto que escapou do dilúvio e com o qual Deus restaurou a sua Aliança (Gn 9, 1-13).

No coração desta Humanidade recriada, Deus vai infundir uma nova força espiritual, diz o profeta Ezequiel:

“Dar-lhes-ei um coração novo e infundirei no seu íntimo um espírito novo. Arrancarei do seu peito o coração de pedra e dar-lhes-ei um coração de carne, a fim de caminharem sobre os meus preceitos e observarem a minha Aliança.

Então eles serão o meu povo e eu serei o seu Deus” (Ez 11, 19-20). Naquele dia Deus vai fazer surgir o Homem Novo, o qual é obra do Espírito Santo:

“Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um Espírito renovado. Arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne.

Dentro de vós porei o meu Espírito, a fim de seguirdes as minhas leis e praticardes os meus preceitos” (Ez 36, 26-27).

Oseias diz que a restauração do povo acontecerá em três dias, texto que o Novo Testamento vai interpretar como tratando-se de uma profecia sobre a ressurreição de Cristo:

“Deus dar-nos-á a vida em dois dias e ao terceiro dia nos levantará” (Os 6, 1-2).

Segundo os textos apocalípticos do dia da ira, a maior parte da Humanidade é destruída pela ira de Deus.

O pequeno resto fiel, diz o profeta Isaías, será composto por pessoas cheias do Espírito Santo, passando a formar o Reino Santo de Deus (Is 7, 3; 10, 20-22).

O profeta Jesemais diz que após o castigo purificador, Deus fará uma Aliança definitiva com este resto restaurado:

“Dias virão em que firmarei uma Nova Aliança com a casa de Israel e a casa de Judá, Oráculo do Senhor (…).

Esta será a Aliança que estabelecerei, depois desses dias com a casa de Israel, oráculo do senhor:

Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá-la-ei no seu coração. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo (Jer 31, 31-33).

Pouco a pouco, o judaísmo posterior começa a associar o dia da Ira à vinda do Messias: Quando o Messias vier, ele vai destruir o pecado e os pecadores, ele vai restaurar uma Nova Humanidade reconciliada e em comunhão com Deus.

A pregação de São João Baptista situava-se nesta linha do judaísmo. Eis as suas palavras no evangelho de São Lucas: “João dizia às multidões que acorriam para serem baptizadas: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para chegar” (Lc 3, 7).

No evangelho de São Mateus, São João Baptista ameaça os fariseus e os saduceus com o dia da ira que está prestes a chegar:

“Vendo que muitos fariseus e saduceus vinham ao seu baptismo, João dizia-lhes: Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que está para chegar (…).

O machado já está posto à raiz das árvores e toda a árvore que não dá fruto vai ser cortada e lançada ao fogo (…).

O que vai chegar baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo. Ele tem na sua mão a pá de joeirar, limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro, mas queimará a palha num fogo que nunca mais se apagará” (Mt 3, 7-12).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

DO DEUS VINGATIVO AO DEUS PAI AMOROSO-II

II-O DIA DA IRA NA PREGAÇÃO DOS APÓSTOLOS

Ao ouvir a pregação de João, Jesus começou a distanciar-se, sobretudo em relação ao Deus vingativo do dia da ira.

Na verdade, Jesus não se sentia chamado a destruir os pecadores, mas a libertá-los das amarras do pecado.

De João Baptista Jesus recebeu a ideia de que o Reino estava a chegar e por isso começa a sua pregação anunciando a proximidade do Reino de Deus.

Eis como o evangelho de São Marcos apresenta o início da sua pregação: “Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e pregava o evangelho de Deus, dizendo: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo.Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 14-15).

As tentações de Cristo não foram mais que a crise pela qual Jesus passou quando se afastou de João e ainda não via claro o modode realizar a sua missão.

Segundo o evangelho de São Lucas, o Espírito Santo ajudou Jesus a ver claro, através de um texto de Isaías (Is 61, 1-3).

Após ter descoberto o plano de Deus e a missão que lhe era pedida, Jesus comunicou de modo solene a sua descoberta quando foi à sinagoga de Nazaré (Lc 4, 18-21)

Entretanto, os Apóstolos seguiam Jesus convencidos de que ele era o rei messias anunciado pelos profetas e que, muito em breve subiré ao trono.

A morte de Jesus foi uma desilusão para os Apóstolos, pois afinal morreu sem subir ao trono.
Quando Jesus ressuscitado lhes apareceu, estes recuperaram as antiga esperanças e começam a anunciar Jesus como o Messias rei que vai via de novo.

Os judeus mataram-nos, mas Deus ressuscitou-o e fê-lo sentar num trono à sua direita no Céu (Rm 1, 3-5).

Isto quer dizer que o Senhor ressuscitado, uma vez constituído rei messiânico, vai regressar em breve para restaurar o Reino de Deus.

Esta restauração vai acontecer através de uma segunda vinda que acontecedrá ao jeito do dia da ira. Antes de restaurar o seu reino, Jesus fará desaparecer da terra o pecado.

Para realizar esta acção purificadora, Jesus terá de actuar como juiz implacável, destruindo os pecadores tal como os profetas anunciaram quando falaram do dia da ira.

Jesus, agora, está sentado no seu trono de glória até ao dia em que voltará para estabelecer o Reino de Deus sobre a terra (Act 3, 19-21).

É com esta linguagem que os Apóstolos começam a pregar a segunda vinda de Cristo. O dia da sua vinda será o dia da ira.

Nesse dia Deus vai punir os pecadores, sobretudo os que mataram o seu Filho. A segunda vinda de Jesus é anunciada pelos discípulos ao jeito do dia da ira.

Eis as palavras duras que evangelho de São Lucas põe na boca de Jesus quando este falava do dia da sua vinda:

“Quanto a esses meus inimigod que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trzei-os cá e degolai-os na minha presença” (Lc 19, 27).

Na pregação dos Apóstolos após a Páscoa, o dia da ira torna-se sinónimo da segunda vinda de Cristo:

“Irmãos, quanto aos tempos e aos momentos, não precisais que vos escreva. Vós sabeis perfeitamente que o dia do Senhor chega de noite, como um ladrão.

Quando disserem, paz e segurança, então se abaterá repentinamente sobre eles a ruína como as dores de parto sobre a mulher grávida. Nenhum deles escapará.

Mas vós, irmãos, não estais nas trevas, de modo que esse dia vos surpreenda como um ladrão (…).

Considerando-se privilegiado por fazerem parte do pequeno resto dos justos, São Paulo diz que Deus não nos destinou para a ira, mas para a posse da salvação, por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Ts 5, 1-9).

Jesus vai vir como juiz severo e castigador. O dia da sua vinda será um dia de castigo.
Eis as palavras do Livro dos Actos dos Apóstolos: “O Sol transformar-se-á em trevas e a Lua em sangue antes de vir o dia do Senhor, grande e glorioso.

Todo o que invocar o nome do Senhor (o resto fiel) será salvo” (Act 2, 20-21). Jesus Cristo virá sentado no seu trono, investido do poder de julgar, condenar e destruir os pecadores (Lc 21, 20-30).

A prova de que esse dia está perto, é que Deus já derramou o seu Espírito como tinha prometido pelo profeta Joel, diz o Livro dos Actos dos Apóstolos:

“Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel: “Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura” (Act 2, 16-17).

Só os que fazem parte do resto fiel escaparão ao dia da ira, diz a Primeira Carta aos Tessalonicenses:

“Deus não nos reservou para o dia da ira, mas para alcançarmos a salvação por Nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tes 5, 9).

Esta pregação dos Apóstolos está fundamentada nos textos apocalípticos dos antigos profetas e não são fruto directo da pregação de Jesus.

Na verdade, a pregação de Jesus incidia sobre a vinda do Reino de Deus e não sobre uma segunda vinda para destruir os pecadores.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

DO DEUS VINGATIVO AO DEUS PAI AMOROSO-III

III-JESUS PERDOA PECADOS E DEFENDE OS PECADORES

Foi a pregação apocalíptica de São João que motivou Jesus a retirar-se para o deserto, a fim de melhor conhecer o plano de Deus sobre a sua missão messiânica.

Os evangelhos acentuam que Jesus estava preocupado por conhecere e ser fiel à vontade do Pai:

“O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4, 34). E ainda: “Não procuro a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5, 30).

Os evangelho deixam bem claro que Jesus não via a sua missão como uma tarefa destinada a matar os pecadores.

O modo de actuar de Jesus demonstra que nunca se atribuiu o papel de executor da ira de Deus.

Mas não há dúvida de que Jesus via a destruição do pecado como um dos aspectos centrais da sua missão.

A destruição do pecado era uma tarefa essencial para acontecer a libertação dos pecadores.

Muitas vezes Jesus se opôs à prática cruel do judaísmo que matava os pecadores, julgando prestar assim um serviço à justiça de Deus.

E assim, por exemplo, Jesus tomou a defesa da mulher adúltera, apesar de ser totalmente contra
o pecado do adultério (Jo 8, 3-11).

Outra vez entrou em casa de Zaqueu e sentou-se à mesa para tomar uma refeição com pecadores e marginais, diz São Lucas (Lc 19, 7-8).

São Paulo entendeu muito bem a missão libertadora de Jesus que veio para salvar os pecadores e não para os destruir.

Eis o que ele diz na Primeira Carta a Timóteo: “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro” (1 Tim 1,15).

O próprio Jesus disse muitas vezes que a vontade de Deus é a salvação dos pecadores:

No relato da Anunciação, São Mateus põe na boca do anjo as seguintes palavras dirigidas a José:
“Ela dará à luz um filho e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vem para salvar o povo dos sus pecados” (Mt 1, 21).

Um diz em que discutia com os fariseus, Jesus disse-lhes: “Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores” (Lc 5, 32).

Jesus sabia distinguir muito bem entre pecado e pecador. O pecado é para ser destruído, pois oprime o Homem. O pecador, pelo contrário, é para ser liberto e salvo.

Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João: “Quem comete o pecado é escravo do pecado” (Jo 8, 34).

Por isso os fariseus o acusavam de ser infiel a Deus, pois até comia com os pecadores: “Estando Jesus em casa de Mateus, vieram muitos publicanos e pecadores e sentaram-se à mesa com ele e os seus discípulos.

Vendo isto, os fariseus perguntaram aos discípulos: “Porque come o vosso mestre com os publicanos e os pecadores?” (Mt 9, 10-11; cf. Mc 2, 15-16; Lc 5, 30).

Jesus manifesta sempre grande alegria quando um pecador se liberta do pecado que o oprime:
“Alegrai-vos comigo porque encontrei a minha ovelha perdida!

Eu vos digo que haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converta do que por noventa e nove justos que não precisa de conversão” (Lc 15, 6-7).

A parábola do Filho Pródigo é um ensinamento genial de Jesus para exprimir o amor incondicional de Deus para com os pecadores.

Segundo esta parábola, o pecador pode estar seguro de encontrar sempre o Pai do Céu de braços abertos para o acolher (Lc 15, 11-32).

Eis o que São Paulo diz no Livro dos Actos dos Apóstolos: “Sabei que é por este Jesus que a remissão dos pecados vos é anunciada” (Act 13, 38).

Isto quer dizer que os textos apocalípticos que falam da segunda vinda de Jesus para destruir os pecadores são obra dos Apóstolos, não de Jesus.

Estes textos são provenientes dos apocalipses do dia da ira dos profetas. Como Jesus não realizou estas profecias durante a sua primeira vinda, pensam os Apóstolos, é porque as vai realizar na segunda.

O Pai pregado por Jesus é sempre apresentado como um Pai bondoso e nunca e nunca o Deus vingativo dos textos proféticos do dia da ira.

Ao ensinar os discípulos a rezar, Jesus ensinou-os a tratar Deus como Pai bondoso sempre disposto a ajudar-nos. Jesus dizia que Deus é bom e boas são as coisas que vêm de Deus (Mt 6, 9-13).

O evangelho de São João diz que Deus Pai enviou o seu Filho ao mundo para salvar os pecadores:

“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o munda seja salvo” (Jo 3, 17).

Na Primeira Carta a Timóteo São Paulo exprime de maneira muito bonita o plano sonhado por Deus para a Humanidade:

“Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tim 2, 4).
Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

DOIS TESTAMENTOS E UMA SÓ BÍBLIA-I

I-DOIS TESTAMENTOS INTERACTIVOS

O Antigo e o Novo Testamento formam uma unidade interactiva, pois nenhum deles encontra sentido pleno desvinculado do outro.

Por outras palavras, o Antigo e o Novo Testamento são de tal modo interdependentes que, se isolarmos um do outro, os dois ficam realidades incompletas.

Isto quer dizer que só podemos entender um testamento na medida em que o inter-relacionemos com o outro.

Na verdade, o Antigo Testamento conduz para o Novo e este encontra as suas raízes históricas no Antigo.

O ponto de encontro dos dois testamentos é Jesus Cristo, pois é nele que se realizam as grandes aspirações do antigo Testamento e é a partir dele que emerge a Boa Nova do Novo Testamento.

Por outras palavras, as grandes aspirações do Antigo Testamento realizam-se em Jesus Cristo, do mesmo modo que o alicerce do Novo Testamento é Jesus Cristo.

E assim podemos ver como o Novo Testamento dá testemunho da ressurreição de Jesus Cristo e do dom do Espírito Santo, o qual faz de nós membros da Família de Deus (cf. Rm 8, 14-16; Gal 4, 4-7).

Mas ao mesmo tempo verificamos que os dons messiânicos realizados em Cristo, já tinham sido profetizados pelo Antigo Testamento (cf. Jer 31, 31-33; Ez 36, 26-27).

No Novo Testamento, Jesus declara-se o Messias ungido pelo Espírito Santo para anunciar a Boa Nova aos pobres, a libertação aos cativos, dar vista aos cegos e fazer os coxos caminhar (Lc 4, 18.21).

Mas esta proclamação é feita através da leitura de um texto do Antigo Testamento. Isto quer dizer que Jesus apresenta o seu projecto de vida com um texto do profeta Isaías (Is 61, 1-3).

Num dos relatos do seu evangelho, São Mateus diz Jesus estava rodeado de enfermos, curando-os a todos e libertando as pessoas dos espíritos malignos, a fim de anunciar o que fora anunciado pelo profeta Isaías (Mt 8, 16-17).

Após a sua ressurreição, diz o evangelho de São Lucas, Jesus diz aos discípulos de Emaús que era necessário realizar tudo o que estava escrito acerca dele na Lei de Moisés, nos salmos e nos profetas (Lc 24, 44).

Podemos dizer que os autores do Novo Testamento, ao elaborar os seus relatos têm sempre presente os conteúdos do Antigo Testamento.

Deste modo, nos relatos de milagres operados por Jesus, podemos distinguir sempre três aspectos:

1-Intenção teológica:
Ao elaborar um relato sobre um milagre de Jesus, o evangelista tem sempre presente um outro relato parecido do Antigo Testamento.
Com este procedimento o autor que dizer que o plano salvador de Deus iniciado com os grandes personagens do Antigo Testamento atinge agora a sua plenitude.

2-Intenção catequética:
Este aspecto consiste em elaborar o relato de modo e comunicar ao leitor certos aspectos importantes da doutrina fé.

3-Experiência pascal:
Todos os relatos de milagres atribuídos pelo Novo Testamento ao Jesus histórico têm já presente a experiência das aparições do Senhor ressuscitado.

Podemos dizer que muitos dos relatos do Novo Testamento se tornam muito mais claros e significativos quando postos em confronto com o Antigo Testamento.

Os escritores do Novo Testamento partem do princípio de que o Antigo Testamento confirma e corrobora a sua pregação sobre Jesus Cristo ressuscitado (Act 2, 29-33).

Por outras palavras, o Antigo Testamento é básico para compreendermos a unidade histórica do projecto criador e salvador de Deus.

É evidente que o Antigo testamento se apresenta como um conjunto de relatos e profecias que apontam para uma realização e uma plenitude que irá acontecer.

O grande protagonista deste plano salvador é Deus que, pelo seu Espírito, vai actuando pelos profetas e, mais tarde, pelo Messias.

Na verdade, o Antigo Testamento olha em direcção a um futuro que vai conferir plenitude ao passado do Homem e do povo de Deus.

Esta dinâmica histórica é protagonizada pelo Espírito Santo, o qual faz história connosco, embora sem nos substituir:

“Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não sois capazes de as compreender por agora.
Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, há-de guiar-vos para a verdade completa” (Jo 16, 12-13).

O Livro dos Actos dos Apóstolos associa a experiência da força transformadora do Espírito Santo com a plenitude dos tempos anunciada pelo profeta Joel:

“Mas tudo isto é a realização do que disse o profeta Joel: “Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o meu Espírito sobre toda a criatura.

Os vossos filhos e as vossas filhas hão-de profetizar. Os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos terão sonhos (Act 2, 16-17).

Não foi por acaso que os escritores do Novo Testamento sentiram a necessidade de relatar os acontecimentos da vida, morte e ressurreição de Cristo com citações do Antigo Testamento.

A bíblia é cristocêntrica, tem Cristo no centro.O Antigo Testamento suspira por Cristo. O Novo Testamento parte de Cristo, sentido máximo da História e meta para a qual a Humanidade
caminha.
Isto que dizer que os dois testamentos são, na verdade, uma única bíblia. Por outras palavras, não é possível fazermos uma leitura aprofundada da bíblia sem pormos em confronto os dois testamentos.

É assim que se revela o dinamismo subjacente à leitura interactiva dos textos sagrados. Esta leitura interactiva é uma mediação privilegiada para descobrirmos a profundidade teológica dos textos, bem como o dinamismos histórico daacção salvadora de Deus.

Podemos dizer que o Antigo Testamento confere base histórica ao Novo e o Novo confere carácter de veracidade aos oráculos e profecias do Antigo.

De facto, sem o Antigo Testamento, o próprio cristianismo carecia de fundamento histórico, pois Jesus Jesus Cristo não emergiu a partir de um vazio histórico.

Pelo contrário, o acontecimento de Jesus Cristo surgiu como plenitude da longa história da salvação que Deus foi revelando através do povo bíblico.

Isto quer dizer que a compreensão do Antigo Testamento é fundamental para entendermos com clareza a mensagem e a dinâmica da Salvação testemunhada pelo Novo.

Além disso, a leitura do Antigo Testamento fortalece a nossa esperança, dando-nos a certeza de que o Deus fiel às promessas da Antiga Aliança realizará do mesmo modo o projecto salvador da Nova Aliança.

Por outras palavras, assim como as profecias messiânicas conduziram o povo bíblico até Jesus Cristo, do mesmo modo o acontecimento salvador de Jesus ressuscitado nos conduzirá à plenitude do Reino de Deus.

Graças a esta unidade e interacção, o Antigo Testamento surge para os cristãos como Palavra de Deus tal como o NovoTestamento.

O Antigo Testamento aponta para Cristo no qual encontra a sua realização e confirmação.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

DOIS TESTAMENTOS E UMA SÓ BÍBLIA-II

II-OS DOIS TESTAMENTOS E A FIDELIDADE DE DEUS

A Revelação não é um mero discurso teórico de Deus. Implica uma presença especial do Espírito Santo no interior do povo de Deus.

O Antigo Testamento é um conjunto de relatos que testemunham as experiências primordiais da revelação e da acção de Deus na história do seu povo.

Por outro lado, estes relatos são também uma mediação para o Espírito Santo fazer acontecer revelação no nosso coração.

A revelação, portanto, é uma experiência e uma vivência a qual não é apenas o conhecimento do projecto de Deus, como também uma capacitação para amar ao jeito de Deus.

Uma vez que o Antigo Testamento é também revelação para os cristãos, existe uma relação teológica entre o povo bíblico e o Novo Povo de Deus.

Podemos dizer que o Antigo Testamento contém uma história que se move continuamente da promessa para a sua realização.

Ao mesmo tempo ajuda-nos a compreender Jesus Cristo como o enviado de Deus que fora antecipadamente anunciado.

Na verdade, Jesus confirma o Antigo Testamento, pois é o sinal da fidelidade de Deus que realizaou as antigas promessas.

Se Jesus confirma o testemunho profético do Antigo Testamento, então temos de reconhecer que este é revelação para os cristãos.

Por seu lado, o Novo Testamento confirma e confere plenitude à revelação do projecto de Deus tal como ele se manifestou nas maravilhas relatadas pelo Antigo Testamento.

Mas não podemos ignorar o carácter de plenitude que o Novo Testamento confere ao Novo. Do ponto de vista do Novo Testamento, Jesus Cristo é o centro da História da Salvação e o início de uma Nova Criação (2 Cor 5, 17-19).

Em Jesus Cristo a salvação adquire uma dimensão universal. A salvação encontra-se em Jesus Cristo, pois foi ele que deu início à plenitude dos tempos como diz a Carta aos Gáçatas (Gal 4, 4).

O Antigo Testamento apresenta-se como processo histórico a caminhar para uma meta. O Novo Testamento, por seu lado, proclama que a meta pela qual o Antigo Testamento suspirava é Jesus Cristo.

Jesus Cristo cumpriu plenamente a Lei e os profetas diz o evangelho de São Lucas (Lc 24, 25-27).

O Antigo Testamento é citado como um conjunto de promessas e profecias agora plenamente realizadas em Cristo.

Este modo de proceder significa que o Novo Testamento precisa do Antigo para testemunhar de modo pleno e perfeito o acontecimento de Cristo.

Os primeiros cristãos usavam o Antigo Testamento porque acreditavam que Jesus é o Cristo anunciado pela Lei, os profetas e os salmos.

Nesta interacção do Antigo com o Novo Testamento, a História da Salvação aparece-nos como uma cadeia de relatos e acontecimentos ligados pela profecia e a sua realização.

Uma vez que o cume da História da Salvação é Cristo, é normal que o sentido mais profundo do Antigo Testamento como História da Salvação só possa ser entendido de modo pleno e perfeito pelos aceitam o Novo Testamento.

Isto quer dizer que as palavras e acontecimentos do Antigo Testamento só pode ser totalmente claros quando vistos na perspectiva do Novo.

Vistos nesta perspectiva interactiva, torna-se claro que tanto o Novo Testamento como o Antigo pertencem um ao outro e nenhum deles está completo sem o outro.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias



sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

O DRAMA DA FOME NESTE MUNDO DE RIQUEZAS-I


I-SOCIEDADES INSENCÍVEIS

Apesar dos progressos científicos do Homem e dos avanços no domínio da técnica, a fome no mundo está a aumentar.

Surgem novos surtos de antigas epidemias, além das novas que eliminam milhares de seres humanos.

Enquanto os pobres estão cada vez mais pobres, os ricos exibem luxos e caprichos cada vez mais dispendiosos.

Vivemos em sociedades edificadas sobre critérios egoístas onde cresce de modo assustador a indiferença e a solidão.

Na verdade, as sociedades de hoje estão e estruturar-se sobre critérios diametralmente opostos ao Evangelho.

Ao entregar a terra aos homens, Deus sonhava com um plano de fraternidade e de paz, onde os bens da terra circulassem por todos os seres humanos.

Gerir as riquezas da nossa terra segundo o plano de Deus é orientá-las no sentido do bem de todos.

É verdade que as pessoas não são todas iguais. Mas todas nascem iguais em dignidade e direitos.

Os direitos e deveres vêm com o surgimento da consciência, da liberdade e da responsabilidade.

As pessoas que possuem bens têm uma vocação distinta daquelas que não os possuem. A fidelidade à própria vocação é uma dimensão essencial para a realização e a felicidade da pessoa.

A vocação das pessoas que possuem bens é partilhar com os mais pobres, tornando-se mediação do amor de Deus para todos.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias




O DRAMA DA FOME NESTE MUNDO DE RIQUEZAS-II



II-O DINHEIRO E OS POBRES

Podemos dizer que, as pessoas que sabem partilhar são uma parábola viva do amor de Deus.

Por outras palavras, a vocação dos que possuem bens é ser uma mediação da providência e do amor de Deus, fazendo que esses bens cheguem aos que não têm.

São estes os ensinamentos que Jesus nos transmite sobre os bens e afraternidade humana.

Assente sobre uma civilização agrária, o Antigo Testamento ordenava que os donos das terras, na época das ceifas, deviam deixar uns restos nos capos, a fim de os pobres os poderem apanhar.
O mesmo devia ser feito pelos donos das vinhas e dos pomares, diz o Livro do Levítico (Lv 19, 9-
10).
Em cada três anos, um décimo dos produtos da sementeira ou das vinhas e pomares devia reverter em favor dos que não possuiam terras, diz o Livro do Deuteronómio (Dt 26, 12).

Nos nossos dias esta questão apresenta-se de modo diferente. Mais que falar do problema de deixar frutos para os pobres virem a apanhar atrás dos ceifeiros, hoje põe-se sobretudo a questão dos salários justos dos que trabalham, do grande drama do trabalho precário ou no direito dos pobres à saúde.

Põe-se ainda a questão do direito a uma habitação condigna, à escolaridade e uma boa formação profissional.

À luz da fé, não podemos dizer que o dinheiro, em si mesmo seja um mal, pois ele é uma ferramenta para facilitar a vida das pessoas.

O problema moral associado ao dinheiro é que este pode ser usado para bem, sendo gerido numa linha de justiça e fraternidade.

Como sabemos, há muitas pessoas que estão impedidas de se humanizar por falta de dinheiro.

Por outro lado, há muitas pessoas que se desumanizam por usarem o dinheiro contra os seus irmãos.

O que as pessoas fazem com o dinheiro mostra o que elas são e pensam em relação a si e aos outros.

Onde estiver o tesouro de uma pessoa, disse Jesus aos discípulos, aí estará o seu coração (Mt 6, 21).

Se os seres humanos que têm dinheiro decidirem geri-lo na linha da fraternidade, estes podem ter a certeza de que serão abençoadas por Deus e por todos aqueles que foram beneficiados por eles.

De facto, sempre que pomos o nosso dinheiro ao serviço do amor estamos a sintonizar com o coração de Deus.

Apesar dos avanços da ciência e da técnica, a pobreza está a aumentar no mundo. Mas temos de dizer que isto não é uma fatalidade.

Jesus ensinou-nos a entrar na dinâmica da partilha, o único caminho que nos conduz até à abundância.

Com o milagre da multiplicação dos pães, Jesus quis ensina-nos que o pouco partilhado chega para muitos e ainda sobra (Mt 14, 13-21; Mc 6, 34-44; Lc 9, 10-17).

O Evangelho ensina-nos que as pessoas que se deixam enredar na posse do dinheiro e das riquezas dificilmente entrarão no Reino de Deus.

O projecto de Deus, diz a mãe de Jesus no evangelho de São Lucas, é encher de bens os famintos e despedir sem nada os que se recusam a partilhar (Lc 1, 53).

É importante, dizia João Baptista, que aqueles que têm duas túnicas repartam com os que não têm nenhuma.

Do mesmo modo, acrescentava ele, os que têm abundância de comida devem fazer o mesmo (Lc 3, 10-11).

O plano de Deus, acrescentou Nossa Senhora, é que os famintos hão-de ser saciados (Lc 6, 20-21; Mt 5, 3-12).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O DRAMA DA FOME NESTE MUNDO DE RIQUEZAS-III

III-A CONVERSÃO CONDUZ À PARTILHA FRATERNA

A conversão a Cristo, dizem os evangelhos, passa pela mudança de atitude face às riquezas:

Eis as palavras do recém convertido Zaqueu: “Senhor, eis que vou dar metade dos meus bens aos pobres. Além disso, se defraudei alguém, vou restituir-lhe quatro vezes mais” (Lc 19, 8).

Apesar de se tratar de um relato elaborado para servirdemodelo, o Livro dos Actos dos Apóstolos apresentam a comunidade cristã de Jerusalém como a realização das propostas de Jesus face às riquezas:

“A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era comum (...). Por isso não havia entre eles qualquer indigente.

Os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e colocavam o dinheiro aos pés dos apóstolos. Em seguida distribuía-se a cada um conforme as suas necessidades (Act 4, 32-35).

O pecado dos ricos que se recusam a partilhar radica no facto de estes impedirem a humanização dos pobres, esvaziando-os da sua dignidade.

Por isso o evangelho diz que este tipo de pessoas está a caminhar para o malogro e o fracasso definitivo (Lc 1, 46-53).

Isto quer dizer que o Homem se faz, fazendo, realiza-se, realizando. O coração das pessoas vai-se estruturando em harmonia com as opções e atitudes que toma face ao amor e à fraternidade.

Por outraspalavras, as pessoas não não valem pelo que têm, mas sim pelo que são e ser é ser pessoa livre, consciente, responsável e capaz de comunhão amorosa (cf. Lc 12, 15).

Valorizar as pessoas pelo ter é colocar-se numa perspectiva oposta à doutrinado Evangelho, diz a Carta de São Tiago (Tg 2, 1-4).

O Evangelho não nos fornece leis sobre a partilha. Esta, é uma atitude humanizante na medida em que nascedo amor.

A generosidade é um impulso que brota do coração e se mede pelo amor e não pelos cálculos das contas bancárias.

A generosidade nasce no íntimo da pessoa e põe-na em sintonia com o coração de Deus. No entanto, não podemos esquecer o alerta de Jesus: as riquezas são perigosas, pois podem ser um obstáculo ao conhecimento de Deus e à Felicidade Eterna (Lc 12, 16-21).

O problema não é ter dinheiro, mas deixar-se enredar nele, caindo na indiferença e ignorando o sofrimento dos que estão em penúria.

O dinheiro, se não houver cuidado, obscurece a visão da pessoa face à carência e ao sofrimento dos pobres, diz o evangelho de são Lucas (Lc 16, 19-31).

Os cristãos estão chamados a ser no mundo uma parábola viva de fraternidade, sabendo gerir as riquezas no sentido da partilha.

No evangelho de São Lucas, Jesus convida-nos a fazer melhor do que fazem os pagãos, os quais apenas emprestam aos que têm riquezas bens para nos pagar (Lc 6, 27-28).

Neste ponto como em muitos outros, Jesus convida-nos a não nos conformarmos com os critérios do mundo.

Por outras palavras, Jesus convida os seu discípulos a viver uma vida profética no que se refere ao modo de usar o dinheiro e as riquezas.

A partilha e a generosidade podem não ser atitudes politicamente correctas, mas são atitudes fundamentais para a humanização das pessoas e o equilíbrio das sociedades.

Também no que se refere às riquezas, foi por esta Jesus que Jesus convidou os Apóstolos a ser sal, luz e fermento no meio mundo (cf. Mt 5, 13-16).

Além de ser uma tarefa inglória, passar a vida a amontoar tesouros é uma distorção da nossa vocação fundamental em relação à gestão das riquezas.

Com uma grande sabedoria, Jesus disse que passar a vida a amontoar tesouros na terra é estar guardar a meter na arca coisas corruptíveis que a traça destroe e os ladrões farão tudo para roubar (Mt 6, 19-20; Lc12, 33-34).

A experiência ensina que a fonte da felicidade não é o dinheiro mas sim o amor e este nunca será destruído.

O mundo está cheio de gente que vive a nadar em riquezas e, no entanto, é profundamente infeliz.

Mas não é possível encontrar uma pessoa que esteja a gastar a vida pelas causas do amor e se sinta profundamente infeliz.

Nos seus ensinamentos, Jesus foi muito claro dizendo que não é possível servir ao mesmo tempo Deus e o dinheiro.

O dinheiro deve ser posto ao serviço do amor, diz Jesus no evangelho de São Lucas. ele insiste na necessidade de termos o coração liberto face ao dinheiro (Lc 16, 13 -14).

No evangelhos de São Lucas, Jesus diz que o insensato passa a vida a amontoar riquezas. Depois de encher o celeiro faz obras e aumenta-o, a fim de este reter e amontoar mais frutos.

DepoisJesus termina dizendo: “Quando menos pensava, veio a morte e os bens que amontoou acabaram por ficar para outros.

Tudo o que este insensato amontoou de nada lhe serviu (Lc 12, 13-21). Quem vive como insensato, morre como insensato.

Nisto se vê a grande sabedoria de Jesu quando afirmou: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se acabar por entrar no caminho do malogro e fracasso definitivo? (Mt 16, 26; Mc 8, 36; Lc 9, 25).

A partilha é o caminho seguro da abundância. O evangelho de Jesus diz que a coragem de partilhar insere as pessoas na dinâmica da salvação:

“Vinde benditos de meu Pai, pois tive fome e sede, estava nu, preso e doente e vós atendestes-me (Mt 25, 34-45).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

DEUS E O BARRO DO QUAL EMERGE O HOMEM

O Livro do Génesis diz que o Homem, depois de ter recebido o hálito da vida se tornou um ser vivente (Gn 2, 7).

O hálito da vida é o Espírito Santo, o amor de Deus derramado nos nossos corações, diz São Paulo (Rm 5, 5).

Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo faz que o barro primordial se torne barro com coração.

Barro com coração é pessoa que se afadiga para que o outro possa crescer como pessoa feliz.

Barro com coração é a pessoa que procura aceitar o outro como ele é, apesar de, por vezes, isso não ser fácil.

Barro com coração é a pessoa capaz de se alegrar com o sucesso dos outros. Barro com coração é a pessoa que não está sempre a exigir disponibilidade da parte dos outros, mas que procura estar disponível para ajudar os que precisam de si.

Barro com coração é a pessoa que ao aconselhar alguém, procura comunicar sempre o melhor da sua experiência e do seu saber.

Barro com coração é a pessoa cujo modo de amar é de tal modo discreto que o outro, ao ser ajudado, nem se apercebe do sacrifício que está a ser feito.

Barro com coração é a pessoa que não se afasta do outro, só porque este acaba de ter um fracasso na vida.

Barro com coração é a pessoa que se esforça por amar de modo cada vez mais pleno e gratuito.

Barro com coração é aquela pessoa de quem nos lembramos em primeiro lugar nos momentos de dificuldade ou sofrimento.

Barro com coração é a pessoa que não gosta de magoar os outros, mas não deixa de dizer a verdade pelo simples facto de que o outro pode não gostar.

Barro com coração é a mãe que cuida dos seus filhos com uma ternura e cuidados dignos da maior admiração.

É também o pai que faz planos, esforços e horas extraordinárias para que a sua família tenha o pão de cada dia.

Barro com coração é o casal que acolheu uma criança em situação de risco. É também aquele homem que, por ser honesto e fiel à sua consciência foi perseguido e despedido do emprego.

Barro com coração são os homens e as mulheres que vão gastando a vida pela defesa e libertação dos que não têm voz nem sabem defender-se.

Barro com coração são os jovens que tomam o amor a sério, não traindo os amigos e procuram ser fiéis aos projectos ou alianças amorosas.

Barro com coração são as pessoas que deixam sempre mais ricas os que se cruzam consigo na vida.



É Agora o Tempo de moldar o Barro. É agora a nossa grande oportunidade.

É agora que o Espírito Santo nos convida a configurar a nossa identidade espiritual, isto é, o nosso jeito definitivo de nos relacionarmos e criarmos laços de comunhão.

Na Festa da Família de Deus todos dançaremos o ritmo do amor, mas cada qual com o jeito que adquirir na História. É hoje o tempo de treinar.

À medida que o barro vai ganhando a sua identidade original, reforça-se de modo progressivo a sua interioridade espiritual.

Podemos dizer que a pessoa humana é uma obra-prima feita de barro em cuja interioridade está a emergir outra obra-prima feita de espírito talhada para a comunhão amorosa.

As nossas escolhas e atitudes face ao amor são o cinzel com que modelamos este barro precioso.

Ninguém nos pode substituir nesta tarefa de moldar o barro, embora ninguém o possa fazer sozinho.

Na verdade, apenas conseguiremos modelar o barro, em comunhão com Deus e os outros. A configuração que o barro vai adquirindo revela-se através das atitudes do dia-a-dia da pessoa.

O Livro do Génesis diz que o Homem, depois de ter recebido o hálito da vida se tornou um ser vivente (Gn 2, 7).

Isto quer dizer que levamos no nosso íntimo a força criadora do Espírito Santo que nos ilumina e orienta nesta tarefa do modelar o barro.

Ao criar-nos, Deus Pai deu o beijo criador ao barro primordial, comunicando-lhe o hálito da vida.

Ao chegar a plenitude dos tempos, o Filho de Deus deu-lhe o beijo da divinização incorporando-o na Família de Deus.

Agora o Espírito Santo não é apenas o hálito da vida, disse Jesus, mas a Água Viva que faz brotar o nosso coração a Fonte da Vida Eterna (Jo 7, 37-39).

Em comunhão Convosco
Calmeiro Matias


quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

CRISTO COMO INÍCIO E CÚPULA DA CRIAÇÃO

O protagonista da Criação, diz o Livro do Génesis, é a Palavra de Deus, a qual é eficaz porque realiza aquilo que significa (Gn 1, 1-28).

As coisas são boas, pois foram criadas por Deus (Gn 1,1-27). O Novo Testamento assume esta visão do Génesis, mas vai mais longe.

Agora, a Criação é vista à luz do acontecimento de Cristo.O prólogo do evangelho de São João é como que um novo Génesis.

Mas a Criação, no prólogo de São João, é vista à luz da ressurreição de Cristo. São João inicia o seu prologa com as mesmas palavras com que o Génesis inicia o relato da criação:

“No princípio” (Jo 1,1; cf. Gn 1, 1). Tal como no Livro do Génesis também aqui a Criação é obra da Palavra (Jo 1,3).

Surgem referências à luz e às trevas, tal como no Livro do Génesis (Jo 1, 4-5). Todas as obras criadas por Deus são boas. Não há alimentos impuros, diz Jesus.

O que mancha o homem é a maldade que lhe sai do coração e não os alimentos que possa ingerir (Mc 7, 14-20).

São Paulo diz que podemos comer de tudo sem nos pormos questões de consciência (Rm 14,14; 1 Cor 1 0, 25).

A Primeira Carta a Timóteo é ainda mais explícita quando afirma:

“Tudo o que Deus criou é bom. Não devemos rejeitar qualquer alimento por razões de pureza ou impureza” (1 Tm 4, 2-5).

Deus chama à existência as coisas que não são, a fim de começarem a existir (Rm 4, 17; cf. Gn 1, 3).

Deus é invisível, mas o seu ser mostra-se-nos de modo analógico através das criaturas (Rm 1, 19; cf. Sb 13).

A Primeira Carta a Timóteo diz que é Deus quem dá vida a todas as coisas (1 Tim 6, 13).

Ele cuida com ternura de tudo o que criou: Nem um só pássaro cai por terra sem que Deus o permita (Mt 10, 29).

Foi ele quem deu beleza aos lírios do campo e agilidade às aves do céu (Mt 6, 25-34).

São Paulo diz que o mundo foi criado por Cristo e para Cristo (Col 1, 15-20; Flp 2, 6-11).

Cristo veio como Novo Adão, a fim de corrigir os danos causados pelo primeiro Adão e conduzir a Criação à sua plenitude.

Como Adão falhou, a imagem perfeita de Deus, agora, é Jesus Cristo (Col 1, 15; Flp 2, 6).

Ele é o princípio, o centro e o fim da Criação (Col 1, 15-20).

A Segunda Carta aos Coríntios diz que Jesus Cristo é primogénito da Criação e a sua plenitude:

“Todos os que estão em Cristo são uma Nova Criação. Passaram as coisas velhas.
Tudo isto se deve ao facto de Deus ter reconciliado consigo a criação por intermédio de Cristo, não levando mais em conta os pecados dos homens” (2 Cor 5, 17-19).

Cristo é a imagem de Deus e por isso ele é a causa exemplar e o padrão do projecto de Deus para a Humanidade (Col 1, 1-16; cf. Sb 9, 1-2, 4; Prov 8, 22).

Isto quer dizer que Deus, ao iniciar o seu projecto criador, já tinha presente a plenitude da salvação em Jesus Cristo.

É este o sentido da afirmação da Carta aos Colossenses quando diz que “Tudo foi criado em Cristo e para ele “ (Col 1, 16).



No momento em que criou Adão, Deus constituí-o cabeça da Criação. Mas com o seu pecado, Adão desorientou a Criação, introduzindo-a no caminho do fracasso.

Foi por esta razão que Deus nos enviou Jesus Cristo como Novo Adão, corrigindo as distorções operadas pelo primeiro (Rm 5, 15-17).

Com Cristo, a Criação reencontra o caminho sonhado por Deus e o Homem assume o seu lugar de Cabeça da Criação, diz São Paulo:

Tudo é vosso, vós sois de Cristo e Cristo é de Deus (1 Cor 3, 21-23). A Carta aos Efésios, para dizer que nós fazemos parte do plano que Deus sonhou desde o princípio, diz que Deus nos elegeu antes da criação do mundo (Ef 1, 3).

Depois acrescenta que fomos eleitos desde o princípio de acordo com um desígnio prévio de Deus (Ef 1, 11).

No livro do Génesis a criação é iniciada em simultâneo com a marcha do tempo.

O prólogo do evangelho de São João vai mais longe neste aspecto, fazendo recuar a génese da Criação até à eternidade.

Nós podemos dizer que a Criação, apesar de ter sido sonhada na eternidade, inicia a sua génese em simultâneo com o tempo (Jo 1, 12-14).

O tempo possibilita a génese criadora do tecido cósmico e o espaço a sua estruturação harmoniosa.

A estrutura literária do prólogo de São João é a dos grandes hinos sapienciais: Existe um ser preexistente à Criação, que é mediação e causa exemplar da mesma.

Nos livros sapienciais esta missão cabe à Sabedoria (cf. Prov 8, 22; Si 24, 3-12; Sb 9, 9-12).

No prólogo de São João esta é a missão do Filho, a Palavra Criadora que o Pai enviou ao Mundo.

Depois de realizar a sua missão, o filho volta para onde estava antes (Jo 6, 62). Ao encarnar, o Logos habitou entre nós e deu-nos o poder de nos tornarmos filhos de Deus (Jo 1, 12-14).

Dá-nos a Água Viva, isto é, o Espírito Santo, que faz germinar uma nascente de Vida Eterna no nosso coração (Jo 4, 14; 7, 37-39).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

A META DIVINA DA HUMANIDADE-I

I-O BARRO DO QUAL EMERGIU ADÃO

Ao iniciar a génese da criação, Deus já tinha em mente a emergência da vida espiritual, condição básica para o gesto de amor infinito da Encarnação.

Por outras palavras, ao iniciar a marcha criadora, Deus já tinha em vista a génese da vida pessoal na génese do Universo e a divinização do Homem em Jesus Cristo.

A Palavra de Deus diz-nos que a plenitude do Homem não culmina na comunhão humana, mas sim na assunção e incorporação Do Homem na Família de Deus.

Por outras palavras, a nossa plenitude acontece através de Jesus ressuscitado o qual, ao comunicar-nos o Espírito Santo, nos introduziu na comunhão da Santíssima Trindade.

É esta a razão pela qual temos de nascer de novo pelo Espírito Santo, como diz Jesus Cristo (Jo 3, 6).

Ao encarnar, acrescenta o evangelho de São João, o Filho de Deus deu-nos o poder de nos tornarmos filhos de Deus.

Eis as suas palavras: “A todos os que o receberam deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.

Estes não nasceram dos laços do sangue, nem dos impulsos da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus. E o Verbo encarnou e veio habitar entre nós” (Jo 1, 12-14).

Por outras palavras, nascemos inacabados, a fim de completarmos em nós a obra criadora de Deus, isto é, humanizarmo-nos em relações de amor, a fim de atingirmos a plenitude do Reino de Deus.

Emergir como pessoa significa crescer em densidade espiritual e capacidade de amar e comungar com Deus e os irmãos.

O ser humano nasce hominizado, isto é, com uma estrutura própria de homem, mas não nasce humanizado, pois a humanização é uma tarefa que cada pessoa tem de realizar em contexto de relações de amor.

Depois de o barro estar amassado, diz o Livro do Génesis, Deus beijou-o e introduziu nele o hálito da vida, a fim de este iniciar a aventura da humanização (cf. Gn 2, 7).

A Encarnação representa um outro beijo, do qual derivou a divinização do Homem. O primeiro beijo foi dado ao Homem por Deus Pai no início da grande epopeia da humanização.

O segundo beijo é dado ao Homem pelo Filho de Deus, possibilitando o salto qualitativo da divinização da Humanidade.

Através do segundo beijo, os seres humanos passam a interagir de modo orgânico com a própria comunidade divina.

De facto, isto só pode acontecer através de Jesus, o evangelho de São João: “Jesus respondeu a Tomé: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim” (Jo 14, 6).

O Espírito Santo fortalece e alimenta a nossa união orgânica com Jesus através do qual somo incorporados na comunhão da Família de Deus.

Jesus comparou a nossa união com ele à união que existe entre ele que é a cepa da videira, e nós que somos os ramos.

Só podemos ser ramos vivos e fecundos se permanecermos unidos à cepa da qual nos vem a seiva, isto é, o Espírito Santo (cf. Jo 15, 4-5).

No nosso íntimo, diz Jesus, o Espírito Santo é como uma Água Viva que faz brotar no nosso coração uma fonte de Vida Eterna (Jo 7, 37-39).

Por outras palavras, falar da seiva da videira que vem da cepa para os ramos ou da Água Viva que vem de Cristo como fonte de Vida Eterna é falar da mesma realidade.

O Espírito Santo é o Sangue da Nova Aliança que vai ser derramado para perdão dos pecados (cf. Mt 26, 28).

Ele é o produto da videira que Jesus beberá com os discípulos no Reino de Deus (Mt 26, 29 cf. Mc 14, 25; Lc 22, 17-18).

Ele é o beijo que Deus deu ao barro primordial do qual saiu Adão (Gn 2, 7). Ele é também o beijo da Encarnação através do qual fomos introduzidos na plenitude dos tempos.

O tempo da gestação chegou à plenitude, dando início ao parto do qual vão surgir os filhos de Deus, pela acção do Espírito Santo, diz a Carta aos Gálatas:

“Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher (…), a fim de recebermos a adopção de filhos.

E porque somos filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito Santo de seu filho que, no nosso íntimo clama: Abba, ó Pai” (Ga 4, 4-6).

O Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações, como diz São Paulo (Rm 5, 5).

O plano de Deus assenta sobre estes dois beijos que devem ser entendidos como uma realidade dinâmica e progressiva.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

A META DIVINA DA HUMANIDADE-II

II-HUMANIZAÇÃO E COMUNHÃO COM DEUS

À medida que um ser humano se humaniza emerge como pessoa livre, consciente, responsável e capaz de amar.

A tarefa da humanização dura a vida toda de uma pessoa. Estamos na História para nos humanizarmos e, deste modo, atingirmos a meta da divinização.

A Comunhão Universal para a qual convergem os seres humanos é a festa universal do Reino de Deus.

Isto quer dizer que o projecto de Deus para a Humanidade engloba duas dimensões: a criação e a salvação.

A salvação da pessoa humana consiste na sua incorporação na Família de Deus. Eis as palavras de São Paulo:

“Na verdade, todos os que são conduzidos pelo Espírito Santo são filhos de Deus. Vós não recebestes um espírito de escravidão que vos encha de medo.

Pelo contrário, recebestes um Espírito de adopção que faz de vós filhos adoptivos. É por este Espírito que clamamos “Abba” ó Pai.

O próprio Espírito Santo dá testemunho no nosso íntimo de que realmente somos filhos de Deus.

Ora, se somos filhos também somos herdeiros: herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo” (Rm 8, 14-16).

Graças a esta presença dinâmica do Espírito Santo em nós, Deus torna-se realmente o Emanuel, isto é, o Deus connosco, como diz o evangelho de São Mateus:

“Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho a quem chamarão Emanuel, isto é, Deus connosco” (Mt 1, 23).

Pelo primeiro beijo, o Espírito Santo Deus vai-nos moldando à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26-27).

Pelo segundo, vai-nos incorporando na Família Divina (Jo 1, 12-14). Pelo primeiro beijo, o Espírito Santo facilita a nossa caminhada no processo da humanização.

O Espírito Santo é o Espírito de Cristo ressuscitado. Assim como ressuscitou Jesus também nos vai ressuscitando com ele.

O sacramento da Eucaristia exprime esta união orgânica com Cristo, dizendo que nós e Jesus fazemos um como ele é um com o Filho Eterno de Deus e, através dele, é um com o Pai:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, do mesmo modo quem me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).

E foi assim que o Filho unigénito de Deus, ao encarnar se tornou o primogénito de muitos irmãos, como diz São Paulo (Rm 8, 29).

São Paulo não se cansava de insistir que o Espírito Santo habita no nosso coração. Em primeiro lugar diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5,5).

Na Primeira Carta aos Coríntios, ele diz que o nosso coração é um templo no qual habita o Espírito Santo:

“Não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1 Cor 3, 16).

Repete ainda esta mesma ideia na Segunda Carta aos Coríntios: “Nós é que somos o templo do Deus vivo, como disse o próprio Deus:

Habitarei e caminharei no meio deles, serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (2 Cor 6, 16).

Diz ainda: “Não sabeis que o vosso corpo é templo do Espírito Santo recebestes de Deus e que está em vós? “ (1 Cor 6, 19).

A presença do Espírito Santo é nós é uma fonte de santidade: “Não sabeis que sois templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?

Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá, pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1 Cor 3, 16-17).

Eis como o Livro do Apocalipse descreve a comunhão definitiva do Homem com Deus na plenitude do Reino:

“E ouvi uma voz potente que vinha do trono e dizia: ‘Esta é a morada de Deus entre os homens.

Ele habitará com os homens e eles serão o seu povo. Deus estará com eles e será o seu Deus, enxugando todas as lágrimas dos seus olhos, pois já não haverá mais morte nem pranto nem dor”. (Apc 21, 3-4).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

sábado, 26 de Setembro de 2009

DESCOBRINDO O ROSTO DE DEUS-I

I-O ROSTO DE DEUS COMO MISTÉRIO ASSUSTADOR

O rosto de Deus, na bíblia, significa o ser e a identidade de Deus. Quando a bíblia diz que um patriarca ou um profeta procura o rosto de Deus quer dizer que essa pessoa deseja entrar na intimidade com Deus.

No Antigo Testamento há muitas passagens bíblicas que falam da impossibilidade de ver a face de Deus.

Há textos que falam do perigo de ver o rosto de Deus. O livro do Génesis diz que certa noite o patriarca Jacob passou a noite a lutar com um personagem desconhecido.

Pela manhã, ao aperceber-se de que se tratava de Deus, Jacob ficou assustado, pois viu Deus face a face e não morreu (Gn 32, 30).

Subjacente a este relato está a ideia de que o homem não pode ver o rosto de Deus, isto é, não tem acesso directo ao mistério do ser e da identidade de Deus.

Por outras palavras, a transcendência e a santidade de Deus é tão excelsa que a proximidade de Deus pode representar uma ameaça para o Homem que é pobre e pecador.

O Livro do Êxodo descreve um episódio em que Moisés pede a Deus para lhe mostrar o seu rosto. Deus respondeu-lhe dizendo que o ser humano não pode ver o rosto de Deus e continuar a viver:

“Não podes ver o meu rosto, disse Deus, pois o homem não me pode ver e continuar a viver” (Ex 33, 20).

É evidente que um texto como este não é para ser tomado à letra. Na verdade, o autor quer dizer apenas que Deus e Moisés não são iguais. O ser humano é imperfeito e limitado.

Deus, pelo contrário, é infinitamente perfeito em todos os seus aspectos. Dizer que o homem não pode ver o rosto de Deus quer dizer que o Homem não tem capacidade para captar Deus de modo perfeito.

A prova de que o autor não pretende ser tomado à letra, é que no capítulo vinte e quatro do mesmo Livro do Êxodo o autor diz que Moisés viu a face de Deus.

Apesar de ter visto a face de Deus e ter comunicado face a face com ele, Moisés não morreu (Ex 24, 10-11).

O livro do Deuteronómio diz que Moisés foi especial entre os profetas, pois Deus comunicou face a face com ele (Dt 34, 10).

Estes textos pretendem afirmar a excepcional intimidade que existia na relação de Deus com Moisés.

A aparente contradição destes textos não é mais que uma tentativa de afirmar por um lado a total transcendência de Deus e, por outro, a sua presença junto do Homem.

Por vezes a bíblia dá a entender que Deus esconde o seu rosto quando está magoado com os pecados do povo.

Neste caso, esconder o rosto corresponde a afastar-se do Homem. A palavra hebraica “Paniym” significa rosto e presença. Portanto, esconder o rosto é retirar-se, afastar-se.

O livro do Êxodo apresenta Moisés como o grande revelador do rosto de Deus. A maneira de Moisés revelar o rosto de Deus consiste em fazer de medianeiro entre Deus e o povo, indo ao encontro de Deus e voltando de novo para junto do povo.

Por outras palavras, o medianeiro é uma pessoa que fala de Deus como de alguém com quem acabou de se encontrar.

Eis alguns textos significativos sobre a tarefa do medianeiro: “E Moisés subiu até Deus (Ex 19, 3).

Então Moisés desceu de junto de Deus e falou aos anciãos do Povo (Ex 19, 7).

Moisés levou as palavras do Povo até junto de Deus (Ex 19, 8).

Então Moisés desceu da montanha até à planície onde se encontrava o Povo (Ex 19, 14).

O Senhor chamou Moisés do alto da montanha. Então Moisés subiu até ao topo da montanha e conversou com Deus (Ex 19, 20).

Depois, Moisés desceu até junto do Povo e disse (Ex 19, 25).

Moisés subiu para receber as tábuas da Lei. O Povo, aterrorizado, mantinha-se à distância e não quis aproximar-se da nuvem densa a partir da qual Deus comunicava com Moisés (Ex 20, 18-21).

O Povo mantinha-se à distância, enquanto Moisés se aproximou da densidade da nuvem na qual Deus estava presente (Ex 20, 21).

Então Moisés desceu até junto do Povo e relatou todas as palavras do senhor e os seus preceitos (Ex 24, 3);

De novo Moisés subiu à montanha cujo pico ficou coberto pela nuvem (Ex 24, 15).

Então, Moisés recebeu as tábuas da Lei, as quais foram escritas pelo próprio dedo de Deus (31, 18).

Depois, Moisés desceu da montanha, trazendo as Tábuas da Lei, as quais estavam escritas dos dois lados (Ex 32, 15).

Depois, Moisés voltou até junto de Deus (Ex 32, 31).

Então, Deus disse a Moisés: “Agora vai e conduz o Povo até onde eu te disse” (Ex32, 34).

Moisés desceu da montanha, mas não sabia que o seu rosto brilhava em virtude de ter falado com Deus (Ex 34, 29).

Este texto significa que o portador da Palavra de Deus leva em si as marcas da mesma Palavra.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

DESCOBRINDO O ROSTO DE DEUS-II

II-JESUS E O ROSTO DE DEUS

Para Jesus Cristo o encontro com o rosto de Deus acontece no interior da pessoa. Também para São Paulo a experiência de Deus é algo interior.
É por esta razão que ele diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

A primeira Carta aos Coríntios reforça esta ideia dizendo que o Espírito Santo habita nos nossos corações como num templo (1 Cor 3, 16).

É no íntimo do nosso coração que o Espírito Santo nos põe face a face com Deus Pai que nos acolhe como filhos e com o Filho de Deus que nos acolhe como irmãos (Rm 8, 14-17).

Quanto maior for a nossa fidelidade ao Espírito que nos habita mais profunda será a nossa comunhão familiar com o Espírito de Deus.

Por outras palavras, o mistério, na bíblia, é um segredo, isto é, uma realidade desconhecida à qual o ser humano só pouco a pouco pode ter acesso mediante a revelação de Deus.

Eis as palavras de São Paulo na Carta aos Efésios: “Por revelação me foi dado conhecer o mistério, tal como vo-lo apresentei de modo sumário.

Ao lê-lo podereis compreender a compreensão que eu tenho do mistério de Cristo, o qual não foi dado a conhecer dos homens do passado.

Mas agora Deus o revelou pelo Espírito Santo aos seus santos Apóstolos e Profetas” (Ef 3, 3-5).
Para o Novo Testamento o encontro com Deus acontece sempre mediação do Espírito Santo.

A Carta aos Colossenses diz que a missão de São Paulo é anunciar a riqueza e profundidade do mistério de Cristo, a fim de as pessoas poderem conhecer o mistério de Deus, no qual estão ocultos os tesouros da Sabedoria e do conhecimento de Cristo” (Col 2, 2-3).

No evangelho de São Mateus, Jesus diz aos seus discípulos que eles têm o privilégio de aceder aos mistérios do Reino:

“A vós foi-vos dado conhecer o mistério do Reino dos Céus, mas aos de fora não” (Mt 13, 11).

O evangelho de São Lucas é ainda mais explícito quando põe na boca de Jesus as seguintes palavras:

“Felizes os olhos que vêem o que estais a ver. Na verdade, muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram!” (Lc 10, 23-24).

Jesus Cristo é a melhor expressão do rosto de Deus na História. Antes de revelar o rosto de Deus aos homens, Jesus Cristo comunicou face a face com o próprio Deus.

“Após ter sido baptizado, Jesus entrou em oração. Nesse momento, o Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre ele, tendo a forma corporal de uma pomba.

Nesse momento, ouviu-se uma voz vinda do Céu que disse: “Tu és o meu filho bem-amado. Hoje mesmo te gerei” (Lc 3, 21-22).

Antes de iniciar a sua missão, Jesus foi consagrado pelo Espírito santo e o Pai declara que ele é o Messias, o filho de Deus.

Tal como aconteceu com Moisés, Jesus procurava as montanhas, as colinas e os lugares silenciosos para contemplar o rosto de Deus, isto é, entrar em comunhão com a intimidade de Deus.

O ruído e a dispersão não são boas mediações para nos encontrarmos face a face com Deus. Eis o que diz o evangelho de São Lucas:

“Tomando consigo Pedro, João e Tiago, Jesus subiu à montanha para orar. Enquanto orava, o aspecto do seu rosto alterou-se e as suas vestes tornam-se brilhantes” (Lc 9, 28-29).

Não é difícil descobrir a relação desta e outras passagens com os relatos que falam dos encontros de Moisés com Deus:

“De madrugada, estando ainda escuro, Jesus levantou-se e retirou-se para um lugar deserto, a fim de orar (Mc 1, 35).

São Mateus diz mais ou menos a mesma coisa: “Tendo despedido as multidões, Jesus subiu ao monte para orar a sós” (Mt 14, 23).

Olhando para os ensinamentos de Jesus, vemos como Moisés e os profetas ficaram muito aquém de Jesus no que se refere à profundidade do conhecimento e da experiência de Deus.

Podemos dizer com toda a verdade que antes de Jesus, ninguém chegou tão longe na revelação do rosto de Deus.

Basta olhar para a profundidade deste texto do evangelho de São João para compreendermos o salto de qualidade que a revelação deu com Jesus Cristo:

“Jesus disse a Filipe: “Há tanto tempo que estou convosco e não ficaste a conhecer-me, Filipe?

Quem me vê, vê o Pai. Como é que ainda me pedes para te mostrar o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo 14, 9-10).

Numa outra passagem deste mesmo evangelho, Jesus fez a seguinte afirmação: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).

Quando a bíblia diz que Deus nos mostra o seu rosto, não está a falar de um acontecimento exterior.

Deus revela-se ao Homem a partir de dentro, pois ele é a interioridade máxima da realidade.

Por outras palavras, quando Deus vem ao encontro do Homem não vem a partir de fora.

A Primeira Carta aos Coríntios diz que o nosso coração é um templo onde o Espírito de Deus habita (1 Cor 3, 16).

O evangelho de São João diz que a revelação do rosto de Deus acontece porque Deus faz uma união orgânica connosco:

“Nesse dia, disse Jesus, compreendereis que eu estou no Pai, vós em mim e eu em vós” (Jo 14, 20).

Por ser homem como nós, Jesus é o medianeiro entre Deus o Homem como afirma a primeira Carta a Timóteo (1 Tim 2, 5).

O medianeiro tem a missão de revelar o rosto de Deus. Eis as palavras de Jesus no evangelho de São João:

“Jesus respondeu: eu sou o Caminho a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai senão por mim.
Se me conheceis, conhecereis também o Pai. E já o conheceis, pois estais a vê-lo” (Jo 14, 6-7).

Isto quer dizer que as palavras e atitudes de Jesus são uma revelação perfeita do rosto de Deus.

Por outras palavras a fidelidade incondicional de Jesus à vontade de Deus é o meio mais perfeito de Jesus nos revelar o rosto do Pai.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

DESCOBRINDO O ROSTO DE DEUS-III


III-OS CRISTÃOS E O ROSTO DE DEUS

À imitação de Jesus, as comunidades cristãs estão chamadas as ser no mundo uma revelação do rosto de Deus.

São Paulo diz que as comunidades cristãs são o corpo de Cristo (1 Cor, 10, 17; 12, 27). Isto quer dizer que a comunidade é uma mediação privilegiada para revelar o rosto de Deus, pois não é uma pessoa mas uma comunidade de três pessoas.

Na verdade, Deus não é uma pessoa mas uma comunidade amorosa de três pessoas. Além da união orgânica que liga Cristo e a Humanidade, os cristãos estão ligados a Cristo através de um vínculo sacramental.

Quando acolhemos a Palavra de Deus no nosso coração, o Espírito Santo consagra-nos para a anunciarmos ao mundo.

Enquanto orava, Jesus fazia a experiência do face a face com Deus, condição essencial para revelar o rosto de Deus ao mundo.

Quando Jesus falava de Deus às pessoas estas tinham um pouco a impressão de que Jesus acabava de se encontrar com Deus. Assim devemos ser nós também.

São Paulo diz que missão do Apóstolo é uma graça de Deus: “Foi-nos dada a graça de anunciar aos gentios a maravilhosa salvação de Jesus Cristo” (Ef 3, 8).

Eis um ensinamento importante de Jesus sobre a necessidade de haver evangelizadores:

“A Seara é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da seara que mande operários para a sua seara” (Lc 10, 4-5).

No evangelho de São Mateus, Jesus insiste na importância da missão dos cristãos para que o rosto de Deus seja revelado aos homens:

“Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser lançado fora e pisado pelos homens” (Mt 5, 13).

Depois acrescentou: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre o monte, nem se acende a candeia para a colocar debaixo da mesa, mas sim em cima, a fim de iluminar todas as pessoas” (Mt 5, 14-16).

O Apóstolo sabe que não leva Deus às pessoas. A sua missão é ajudar as pessoas a descobrirem o rosto de Deus e a sua presença salvadora no íntimo do seu próprio coração.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

O JEITO DE AMAR DE JESUS CRISTO

Chamava-se Jesus e amou sem fingimento. A sua grande paixão era introduzir os seres humanos na Família de Deus.

Tratava Deus por Papá e ensinava as pessoas a fazer o mesmo dizendo: Pai-Nosso que estais no Céu.

Era corajoso e leal. Punha-se sempre do lado dos pobres e dos que não sabiam defender-se.

Deixava mais felizes os que tinham a sorte de comunicar com ele em profundidade. Nunca ninguém ficou mais pobre pelo facto de o ter encontrado.

Defendia a partilha como o caminho seguro para os bens chegarem para todos. Sentia-se bem entre os que tinham um coração capaz de ajudar as pessoas.

Apreciava a companhia dos pobres, pois estes têm uma grande capacidade de partilhar. Apesar de ser contra o pecado jamais defendeu a morte dos pecadores.

Foi por esta a razão que ele tomou partido pela mulher adúltera, apesar de ser contra o adultério.


A vitória de Cristo sobre a morte aconteceu pela acção do Espírito Santo em simultâneo com o próprio acontecimento da morte.

A primeira Carta de São Pedro diz que Jesus não podia permanecer sob o domínio da morte, pois nele estava o Espírito Santo, a dinâmica da ressurreição.

Jesus é a própria ressurreição como diz o Evangelho de São João:
“Jesus disse a marta: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido viverá” (Jo 11, 25).

Como o grupo apostólico só fez a experiência do ressuscitado ao terceiro dia, o autor da carta de Pedro diz que Jesus nesse intervalo não esteve sob o domínio da morte.

Nesse tempo intermédio entre a ressurreição e as aparições, Jesus esteve profundamente dinâmico.

Foi à morada dos mortos, acrescenta a Primeira Carta de São Pedro, levar o Evangelho e ressuscitar os que estavam sob o domínio da morte (1 Pd 3, 18-19).

Graças à união orgânica que existe entre nós e Jesus, o Espírito Santo tem condições para realizar a nossa ressurreição.

Jesus, no evangelho de São João, diz que a força ressuscitadora de Cristo na Humanidade acontece graças ao facto de existir uma união orgânica entre Jesus e a Humanidade.

Esta união, diz Jesus no evangelho de São João, é idêntica à união orgânica e vital que existe entre Cristo e Deus Pai:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica a morar em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come viverá por mim” (Jo 6, 56-57).

Devemos entender a ressurreição de Jesus como um acontecimento progressivo a acontecer em simultâneo com o acto de morrer:

À medida que, no alto da cruz, Jesus ia morrendo, a ressurreição ia acontecendo, pela acção recriadora do Espírito Santo.

Por outras palavras, à medida que ia morrendo aquilo que no homem é mortal, o imortal ia sendo assumido e glorificado.

Isto quer dizer que no momento em que morreu o último elemento do que no homem é mortal, o imortal ou espiritual de Jesus Cristo ficou plenamente ressuscitado e glorificado em Deus.

Deus libertou Jesus da morte, não permitindo que ele estivesse um só momento sujeito à morte.
Quando Jesus acabou de morrer estava totalmente ressuscitado.

Enquanto a morte ia aniquilando o que no homem é destrutível pela morte, o Espírito Santo ia recriando e incorporando na comunhão divina o que tinha densidade para ser assumido e glorificado na Família da Santíssima Trindade.

Portanto, não existe qualquer distância temporal entre a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

Na verdade, à medida que Jesus ia morrendo, o Espírito Santo ia realizando a vitória sobre a morte.

Eis as palavras da Carta aos Hebreus:“Nos dias da sua vida terrena, Jesus apresentou orações e súplicas, com clamor e lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, e foi atendido por causa da sua piedade” (Heb 5, 7).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias