domingo, 2 de maio de 2010

SABER ENFRENTAR OS CRITÉRIOS DO MUNDO

I – ASPECTOS QUE O CRISTÃO DEVE DENUNCIAR

Os critérios do mundo, de modo geral, são um bloqueio à dinâmica da humanização, a qual tende para a justiça, a solidariedade e da fraternidade universal.

À medida em isto vai acontecendo no nosso íntimo, os nossos critérios e atitudes são cada vez mais conformes com os de Cristo.

É, pois, através de nós que o Espírito Santo quer convidar o nosso mundo a optar, tal como Jesus, pela não-violência.

A Palavra de Deus põe o perdão no centro das atitudes verdadeiramente cristãs. Mas não nos pede para calarmos as injustiças ou deixarmos de lutar contra a opressão dos irmãos.

Eis algumas das forças negativas presentes no nosso mundo e que nós, à medida em formos movidos pelo Espírito Santo e a Palavra de Deus denunciaremos ao jeito de Cristo:
* O egoísmo e a indiferença face ao sofrimento e a miséria em muitos contextos sociais conhecidos por todos nós.

*Guerras terrivelmente mortíferas, provocadas por interesses meramente económicos.

*A leviandade com que se põe em perigo o equilíbrio ecológico.

* O tráfico de drogas que destroem pouco a pouco o equilíbrio de milhões de seres humanos.

*A distribuição injusta das riquezas, dando origem a que todos os dias morram muitos milhares de pessoas à fome.

*O abuso sexual de crianças provocando nelas distorções que as deixam com enormes dificuldades para se realizarem de modo equilibrado e feliz.

*As várias formas de violência, sobretudo a tortura e o comércio de mulheres.

* Violação dos direitos humanos.

* A distorção e a destruição da verdade levada a cabo pelos poderosos meios de comunicação, pelos senhores da guerra ou pelos poderosos grupos de pressão.

A Palavra de Deus interpela-nos no sentido de defender a dignidade da pessoa humana.

Impedir um ser humano de se realizar como pessoa é mutilar a Humanidade, pois cada pessoa é uma dádiva única, original e irrepetível do património da Humanidade.

Como sabemos, o amor é interveniente e tenta.

Não há amor autêntico que não procure ser fermento transformador nas situações que desumanizam ou impedem a humanização dos seres humanos.

Somos pela não-violência porque o ódio gera violência e nunca será capaz de extirpar ou vencer o ódio.

Segundo Jesus Cristo, só o amor é capaz de vencer o ódio e criar um alicerce forte para edificar a casa da Nova Humanidade.

O plano de Deus e o seu grande sonho é edificar a fraternidade universal, a base para se edificar a Família Universal de Deus como diz São Paulo (Rm 8, 14-16).

Este é o alicerce mais profundo da dignidade e da igualdade de todas as pessoas.

É verdade que as pessoas não são iguais nas capacidades e talentos, mas são todos iguais em dignidade e direitos.

É urgente reinventar caminhos que nos permitam avançar na conquista da justiça e da fraternidade, a fim de ajudarmos a nascer o Mundo Novo querido por Deus.

Precisamente por não serem violentos, os discípulos de Cristo denunciam a violência.

Fazem-no por um imperativo de consciência, apesar de saberem que estão correndo o perigo da perseguição e até da morte violenta.

Mas a Palavra de Deus ensina-nos que a qualidade de uma vida não se mede pelos anos da sua duração, mas sim pela densidade do amor.

Eis as palavras de Jesus a este propósito: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15, 13).

Como cristãos conscientes e empenhados na obra do Evangelho é importante que, de vez em quando nos ponhamos algumas questões deste tipo:

Que estou fazendo em favor dos meus irmãos? Qual o sentido que estou dando à tua vida? Faço da minha vida um serviço à causa da justiça e da fraternidade?

Deus e o Homem Novo são realmente uma questão primeira na minha vida?

Talvez estas questões possam ser uma mediação para o Espírito Santo me mostrar novos caminhos e possibilidades.


II - AS RIQUEZAS E O EGOÍSMO

Apesar dos enormes progressos técnicos e científicos, a fome no mundo continua a matar milhares de pessoas todos os dias.

Devido à subnutrição de muitas populações e camadas sociais mais pobres, estão a surgir novos surtos de antigas epidemias, além das novas que eliminam milhões de seres humanos.

É chocante ver que enquanto os pobres estão cada vez mais pobres, os ricos exibem luxos e caprichos cada vez mais dispendiosos.

O egoísmo cresce assustadoramente no nosso mundo, gerando sociedades monstruosas onde a indiferença e a solidão das pessoas crescem assustadoramente.

A proposta que Deus faz aos homens vai numa direcção bem diferente: os bens da Terra destinam-se a todos os homens. Por isso o projecto de Deus acerca dos bens da Terra vai no sentido de que estes sejam para todos os homens.

Segundo o plano de Deus, as riquezas da Terra devem ser geridas de modo a produzirem o bem para todos os seres humanos.

Isto quer dizer as pessoas que possuem bens têm uma vocação distinta daquelas que não os possuem.

As pessoas que têm bens são chamadas por Deus no sentido de partilharem com os irmãos, tornando-se deste modo um sinal do amor e da providência de Deus.

À luz da fé, nada há de essencialmente errado no que se refere à existência do dinheiro.

Em si mesmo, o dinheiro é uma ferramenta para facilitar a vida das pessoas.

Mas o problema é que esta ferramenta pode ser fonte de fraternidade ou de fratricídio.

O que as pessoas fazem com o dinheiro mostra realmente o que elas pensam e são em relação a si e aos outros.

Jesus disse que, onde estiver o nosso tesouro, aí estará o nosso coração (Mt 6, 21).

Quando pomos o nosso dinheiro ao serviço da fraternidade e do amor estamos a sintonizar com o coração de Deus, pois como sabemos, Deus é amor (1 Jo 4, 7-8).

O amor é a interioridade máxima do Universo e é o impulso primordial que dinamiza a génese da Criação.

Deus convida as pessoas que têm bens no sentido de sintonizarem com a própria dinâmica criador do Universo.

A pobreza está a aumentar no mundo, mas isto não tem de ser uma fatalidade.

Jesus ensinou-nos a orientarmos a vida no sentido da partilha, o único caminho para caminharmos no sentido da abundância.

O relato do milagre dos pães ensina-nos que a partilha faz que os bens cheguem para todos e ainda sobrem (Mt 14, 13-21; Mc 6, 34-44; Lc 9, 10-17).

O pecado dos que se recusam a partilhar está em bloquear o processo gerador do amor mediante a circulação dos bens.

O projecto de Deus, diz Maria, a Mãe de Jesus, no seu canto do Magnificat é encher de bens os famintos e despedir sem nada os que se recusam a partilhar (Lc 1, 53).

Os evangelhos dizem que é distorcer a vocação fundamental das pessoas que têm bens passar a vida a amontoar tesouros traça e o caruncho podem destruir e os ladrões podem roubar (Mt 6, 19-20; Lc 12, 33-34).

Jesus é muito claro neste ponto: “Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”. As riquezas devem estar ao serviço do projecto de Deus (Lc 16, 13 -14).

O insensato, diz o evangelho, passa a vida a amontoar riquezas. Depois de encher o celeiro faz obras para o aumentar.

Estas pessoas têm a morte dos insensatos. De facto, quem vive como insensato, morre insensatamente.

É o que acontece com a avareza, o que é uma forma de insensatez e incapacidade de discernir e compreender o sentido da vida.

Segundo o evangelho de São Lucas, quando o avarento menos pensava, veio a morte, despojando-o de tudo o que tinha.

E assim, os seus bens ficaram para outros. Tudo o que amontoara de nada lhe serviu (Lc 12, 13-21).

Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se o resultado for o malogro total? (Mt 16, 26; Mc 8, 36; Lc 9, 25).

A partilha, pelo contrário, insere-nos na dinâmica da salvação, diz o evangelho de São Mateus:

“Vinde benditos de Deus, pois tive fome e sede, estava nu, preso e doente e vós atendestes-me” (Mt 25, 34-45).

À luz do Evangelho não há verdadeira conversão a Deus se não houver mudança de atitude face às riquezas.

São Lucas, ao falar de Zaqueu, faz da mudança de atitude face aos bens, o elemento central do relato da conversão do avarento cobrador de impostos:

“Senhor, eis que dou metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém, restituo-lhe o quádruplo” (Lc 19, 8).

Os Actos dos Apóstolos, no relato da comunidade ideal, falam da partilha como a dinâmica que vence a pobreza e a carência:

“A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía, mas tudo era partilhado (...).

Não havia entre eles qualquer indigente, pois os que possuíam terras ou casas vendiam-nas e colocavam o dinheiro aos pés dos apóstolos, a fim de se distribuir a cada um conforma as suas necessidades (Act 4, 32-35).

O pecado dos que têm bens e se recusam a partilhar radica no facto de que estes oprimem e impedem a humanização dos pobres.

É importante ter consciência de que as pessoas não valem pelo que têm mas pelo que são (Lc 12, 15).

O Evangelho não nos fornece receitas sobre a partilha, pois esta nasce do amor e, como sabemos, o amor assenta na gratuidade do dom e não na letra da lei.

Por outras palavras, a generosidade não é uma questão de fazer cálculos sobre as contas bancárias, mas sim de se deixar interpelar pelos critérios do amor.

Como sabemos, no que se refere ao amor, o Evangelho apresenta critérios, mas não dá receitas.

O amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

Podemos dizer que a partilha assenta num conjunto de atitudes que brotam do coração e nos põe em sintonia com o coração de Deus.

Mas não podemos deixar de ter presente as chamadas de atenção de Jesus que não se cansava de insistir que as riquezas são perigosas, pois podem bloquear a comunhão com Deus e os irmãos (Lc 12, 16-21).

As riquezas facilmente endurecem o coração, levando as pessoas que as têm a cair na indiferença, ignorando o sofrimento dos que estão em penúria.

Por outras palavras, se a pessoa não tem cuidado, o dinheiro obscurece a mente e o coração da pessoa face ao sofrimento e à carência dos pobres.

Na parábola do rico avarento e do pobre Lázaro, São Lucas acentua que a avareza é um caminho que conduz ao malogro e ao fracasso existencial, o qual pode ter consequências definitivas (Lc 16, 19-31).

No que se refere ao dinheiro e às riquezas Jesus convida os cristãos a ir mais longe e a fazer melhor do que fazem os pagãos:

Favorecer os que têm e emprestar apenas àqueles de quem temos a certeza de vir a receber é fácil, pois só traz vantagens e nenhum risco (Lc 6, 27-28).

No que se refere ao dinheiro e às riquezas, Jesus não se fica pelos critérios economicamente certos e socialmente seguros.

As propostas de Jesus vão no sentido de assumir atitudes marcadamente proféticas, as únicas capazes de ter impacto e interpelar os homens no sentido de vencer as forças negativas do egoísmo que impedem a emergência de um Homem mais humanizado.
Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

1 comentário:

Lucilton disse...

Estou muito feliz por conhecer os Jovens redentoristas e o seu blog!

Louvo a Deus por suas vidas!

Lucilton
Minas Gerais-Brasil