quarta-feira, 20 de agosto de 2008

QUANDO DEUS SURPREENDE O HOMEM-III


III-O DEUS QUE SE REVELA E SURPREENDE

No mais íntimo do seu ser, Deus é diálogo comunitário. Como vínculo pessoal de comunhão orgânica e princípio animador de relações, o Espírito Santo vai-nos incorporando na comunhão familiar da Santíssima Trindade.

Quando nos dispomos a orar no Espírito Santo, passamos a participar no próprio diálogo de Deus como Filho de Deus Pai e irmão do Filho de Deus.

Eis as palavras de São a este propósito: “O Espírito Santo socorre a nossa fraqueza, pois não sabemos como orar de modo conveniente.

Mas o Espírito Santo ora por nós com expressões inefáveis e o Deus que perscruta os corações sabe muito bem qual é o desejo do Espírito.

Na verdade, o Espírito Santo ora sempre em sintonia com Deus, intercedendo por nós” (Rm 8, 26-27).

É no mesmo Espírito Santo que Deus Pai comunica connosco revelando-nos o seu coração cheio de ternura paternal:

Revela-se como Pai justo, amoroso, misericordioso e paciente. Revela-se como Pai amável, solícito, acolhedor e sempre disposto a perdoar.

Revela-se como Pai leal e verdadeiro, sempre fiel aos valores da Verdade, da Justiça e do Amor.
Revela-se como Pai protector, atento, dedico e sempre pronto a acolher-nos.

Revela-se como um Pai que ama incondicionalmente e, portanto, agindo connosco em dinâmica de graça, isto é, indo muito além do que nós possamos merecer.

É também no Espírito Santo que o Filho de Deus se comunica connosco e se revela a nós como irmão solidário, bom, e fiel companheiro de viagem.

Revela-se como irmão sempre disposto a partilhar o melhor de si e a dar-nos uma mão para nos fortalecer e ajudar.

Revela-se como irmão generoso, o qual nunca faz alarde do bem que nos quer e das coisas boas que nos dá. Revela-se como irmão sempre atento, sincero e fiel.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

QUANDO DEUS SURPREENDE O HOMEM-IV

IV-O LUGAR CENTRAL DO ESPÍRITO SANTO

No coração deste diálogo revelador está presente o Espírito Santo inspirando, palavras e gestos capazes de reforçar esta interacção humano-divina.

O Espírito Santo é o sangue de Deus a circular no nosso coração, comunicando-nos a vida divina.
É o consolador que dá ânimo e nos consagra para a missão.

Liberta-nos do medo das perseguições e obstáculos, inspirando-nos as palavras certas para anunciarmos o Evangelho do Reino.

É o vínculo que nos liga a Cristo de modo orgânico, à maneira da união que existe entre os membros do corpo e a cabeça, como diz São Paulo (1 Cor 10, 17; 12, 27; 13, 16).

É por ele que nascemos de novo, a fim de podermos tomar parte na festa do Reino de Deus (Jo 3, 3-6).

É o Espírito Santo quem realiza de modo definitivo a reconciliação da Humanidade com Deus, fazendo de nós uma nova criação (2 Cor 5, 17-19).

É ele a semente da vida divina em nós, diz a Primeira Carta de São João (1 Jo 3, 9). Ele é o Consolador que nos inspira e fortalece nos momentos de perseguição (Mt 10, 20).

Ele é o mestre que explica o sentido da Palavra de Deus no íntimo do nosso coração. É ele que faz cair as escamas da obscuridade dos olhos da nossa mente, a fim de podermos ver a verdade de Deus e do Homem.

Depois de estas escamas caírem dos começamos a saborear a bondade de Deus e o dom da Salvação como aconteceu com São Paulo (Act 9, 18).

É o Espírito Santo quem executa o projecto libertador de Deus no nosso íntimo, actuando em nome do Pai e do Filho.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

domingo, 17 de agosto de 2008

O ROSTO DO DEUS DE JESUS CRISTO-I

I-O ROSTO DO DEUS DE JESUS CRISTO É COMUNICAÇÃO

Por ser comunhão amorosa, Deus interage com os muitos biliões de pessoas humanas que vivem e viveram ao longo dos milénios.

Por outras palavras, Deus é amor que se difunde pelo Universo. O princípio difusivo do amor de Deus para nós é o Espírito Santo.

Ele é a ternura maternal de Deus através da qual as pessoas humanas são inseridas na comunhão familiar da Santíssima Trindade (Rm 8, 14).

São Paulo diz que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).
Por ser comunhão amorosa, Deus é o fundamento do amor e o alicerce da comunhão universal do Reino.

A Primeira Carta de São João diz que Deus é amor (1 Jo 4, 7-8). Ora, o amor é uma realidade dinâmica que circula nas relações entre as pessoas e gera laços de comunhão.

O amor não se esgota nem envelhece, pois é um dinamismo que se auto gera e fortalece. Na verdade, o amor é uma dinâmica de bem-querer que tem como origem a pessoa e como meta a comunhão.

A natureza do amor é difusiva. A título de exemplo podemos dizer que o amor que a mãe do Pedro lhe tem, não impede que ela tenha um amor igual aos outros dois filhos.

O sol da praia é para todos. Mesmo que haja milhões de pessoas a bronzear-se, ninguém fica menos bronzeado pelo facto de serem muitos.

Mas este exemplo é pobre, pois o sol é uma realidade exterior às pessoas humanas. Com Deus acontece o contrário, pois o Espírito Santo anima-nos e conduz-nos a partir de dentro, pois Deus é a interioridade máxima de todas as coisas.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O ROSTO DO DEUS DE JESUS CRISTO-II

II-DEUS TORNA-SE PRESENTE A PARTIR DE DENTRO

Isto quer dizer que Deus nunca interage connosco a partir de fora e comunica connosco através da ternura maternal do Espírito Santo.

Como sabemos, a luz e o calor do sol chegam até nós, vindos de muito longe. O Espírito Santo, pelo contrário, faz que Deus seja um Deus connosco.

Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo conduz-nos a Deus Pai que nos acolhe como filhos e ao Filho de Deus que nos acolhe como irmãos.

Seguindo o pensamento de são diríamos que o Espírito Santo nos habita e conduz a partir do nosso íntimo. Eis as palavras de São Paulo:
“Não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1 Cor 3, 16).

No evangelho de São João, o Espírito Santo é comparado a uma Água viva que se torna um manancial de vida eterna a jorrar de modo permanente no coração das pessoas (Jo 4, 14; 7,37-39).

No pensamento bíblico o coração é o núcleo mais nobre da nossa interioridade espiritual. Falando em termos espirituais podíamos dizer que o coração é o núcleo a partir do qual emerge e se estrutura o nosso jeito de ser e amar.

O coração é ponto de encontro com Deus e o núcleo no qual a pessoa elabora as suas decisões, escolhas e opções.

É no coração que elegemos o outro como próximo, decidindo fazer-lhe o bem. A presença do Espírito Santo no nosso coração é profundamente dinâmica.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O ROSTO DO DEUS DE JESUS CRISTO-III

III-ESPÍRITO SANTO E PRESENÇA DE DEUS

É no íntimo do nosso coração que o Espírito Santo nos vai dinamizando e moldando à imagem de Deus, configurando-nos com Jesus Cristo.

Precisamos do ar para respirar e viver. Por isso Deus providenciou para que o ar se difunda por toda a terra.

Do mesmo modo, o Espírito Santo está em todos nós, pois precisamos dele para renascer e caminhar para a plenitude do Reino de Deus, diz o evangelho de são João (Jo 3, 3-6).

No seu discurso em Atenas, São Paulo disse que Deus é omnipresente, isto é, está presente a tudo e a todos:

“Deus é o Criador do mundo e de tudo quanto nele existe. Ele é o Senhor do Céu da Terra e por isso não habita em templos feitos pela mão dos homens como se precisasse de alguma coisa (…).

É nele que vivemos, nos movemos e existimos (Act 17, 24-28). Deus ama todas as pessoas e por isso não cessa de suscitar mediações para ajudar aqueles que mais precisam.

O mistério de Deus revelou-se em Jesus Cristo como um mistério de relações amorosas.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O ROSTO DO DEUS DE JESUS CRISTO-IV

IV-DEUS REVELA-SE E INTERPELA-NOS

O facto de Deus se ter revelado como comunhão familiar tem consequências importantes para o ser humano compreender, não apenas o mistério de Deus, mas também o mistério do Homem e do próprio Universo.

Com efeito, se Deus é amor, então temos de reconhecer que o Universo é obra do Amor. Se Deus é uma família de três pessoas, então temos de reconhecer que a primeira realidade a existir é a Família.

Se o Homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, então temos de reconhecer que a pessoa humana precisa de um calda familiar para se estruturar bem e crescer de modo feliz.

Se a pessoa humana apenas fica capacitada para amar de pois de ter sido amada, então temos de reconhecer que a paternidade, para ser humana, precisa da dinâmica do amor.

Por outras palavras, a paternidade humana é imagem e semelhança da paternidade Deus. Isto quer dizer que não podemos limitar a paternidade humana à mera paternidade biológica como acontece com a paternidade do cão e o gato.

Deus está sempre connosco, mas nunca nos manipula nem se nos impõe. É assim a fragilidade do amor. Só existe um Deus, que é o Deus de todos e ama a todos.

Como é amor, Deus não pode deixar de nos amar e, portanto, de oferecer o dom da salvação a todos os seres humanos.

A Carta aos Romanos diz que graças a Jesus Cristo nós somos filhos e herdeiros de Deus Pai, bem como irmãos e co-herdeiros com o Filho de Deus (Rm 8, 14-17).

Em Comunhão convosco
Calmeiro Matias

O ROSTO DO DEUS DE JESUS CRISTO-V

V-ROMPER COM DEUS É ROMPER COM O AMOR

Deus quer a salvação de todas as pessoas, por isso não condenam ninguém. Mas a salvação de Deus é um dom, não uma imposição.

É esta a razão pela qual o ser humano pode dizer não ao amor de Deus e entrar na lógica do fracasso definitivo.

Podemos dizer que Deus não condena ninguém, mas que é muito perigoso brincar com Deus.
Na verdade, a vontade de Deus a nosso respeito coincide rigorosamente com o que é melhor para nós.

Isto quer dizer que as pessoas que brincam com Deus estão a brincar com o seu próprio bem.
Por outras palavras: Deus é amor e, por isso não se vinga de ninguém.

No entanto, brincar com Deus é o sinal de que a pessoa que o faz já entrou no caminho do malogro e do fracasso.

É importante saber que brincar com Deus significa brincar com o amor, pois Deus é amor (1 Jo 4, 7-8).

Podemos ter a certeza de que os seres humanos que tenham terminado no fracasso definitivo não foram condenados por Deus.

Por outras palavras, as pessoas que porventura caminhem para o estado de inferno, não foram condenadas por Deus mas por sua própria decisão.

Deus dá-se de graça. Não é preciso dinheiro para habitar no coração de Deus, isto é, na comunhão da Santíssima Trindade.

Mas os que têm muito dinheiro devem partilhar com os que não têm, a função do dinheiro é possibilitar a realização das pessoas:

Os que têm demasiado não conseguem humanizar-se se não partilham. Do mesmo modo os que estão carenciados também não podem realizar-se sem ter um mínimo de dinheiro que seja suficiente para satisfazer as suas necessidades.

Não é preciso ser muito importante para ter Deus. Mas Deus está especialmente no coração daqueles que emprestam o seu saber e a sua voz para defender os que não sabem defender-se.

É esta a razão pela qual Jesus, em nome de Deus, se colocava sempre do lado dos mais frágeis e desprotegidos.

Em Comunhão convosco
Calmeiro Matias

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O HOMEM É UM MISTÉRIO QUE SE REVELA-II

I-SERES FAMINTOS DE PLENITUDE

Os seres humanos levam consigo uma fome imensa de plenitude. À medida que amadurecemos, vamo-nos dando conta que esta fome de felicidade e plenitude só pode ser saciada através do amor.

Com efeito, o amor é a força que impele o processo de emergência e amadurecimento da pessoa humana.

Em primeiro lugar, precisamos do amor dos outros para sermos capazes de amar. Depois, precisamos de amar para atingirmos a nossa plenitude pessoal.

Na verdade, as pessoas estão telhadas para a reciprocidade amorosa. Isto quer dizer que a pessoa se possui na medida em que se dá.

Estamos, de facto, talhados para o dom. Não é difícil entender como o amor dos outros nos dá segurança.

Ao mesmo tempo sentimos que o nosso amor aos demais ajuda-os a crescer como pessoas e, ao mesmo tempo, faz desabrochar a alegria e a paz no nosso coração.

Estas experiências fazem-nos compreender que a pessoa que se dá não se perde. Pelo contrário, encontra-se e possui-se.

Não é difícil entender como a realidade mais profunda do ser humano é um mistério, isto é, uma realidade não evidente, mas que se vai revelando de modo gradual e progressivo.

De facto, a verdade mais profunda das pessoas não é evidente, mas vai-se revelando pouco a pouco através das relações.

As pessoas humanas, por vezes, distorcem o sentido da fome profunda de amor que levam dentro.

Uma maneira de iludir esta fome de plenitude que levamos connosco, é a fuga para o mundo exterior, procurando a felicidade no dinheiro, no poder, no álcool, nas drogas ou no sexo sem amor.

Mas a experiência encarrega-se de nos ensinar que estas fugas não só não ajudam a encontrar a felicidade, como bloqueiam a nossa realização pessoal.

É importante termos consciência de que a fome de felicidade que levamos connosco tem uma direcção e um sentido espiritual.

Além da sua dimensão corporal, a pessoa é um ser que se estrutura progressivamente como ser espiritual livre, consciente, responsável e capaz de amar.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias



O HOMEM É UM MISTÉRIO QUE SE REVELA-II

II-TALHADOS PARA DEUS

É verdade que a pessoa começa por ser o que os outros fizeram dela. É dos outros que recebemos o leque inicial dos talentos ou possibilidades de realização.

Mas o verdadeiramente decisivo é o modo como a pessoa se realiza a partir do que recebeu dos outros.

Isto quer dizer que a palavra decisiva de qualquer realização pessoal é, de facto, a da própria pessoa.

É esta a razão pela qual cada pessoa se realiza de modo único, original e irrepetível. Na verdade não há duas pessoas iguais. Isto quer dizer que ninguém está a mais, pois ninguém é uma simples cópia do outro.

Ao sonhar o Homem à sua imagem e semelhança, Deus sonhou para o Homem uma plenitude que consiste na optimização do humano pelo divino.

Pelo mistério da Encarnação, Deus ofereceu-nos a possibilidade de sermos assumidos e incorporados na comunhão familiar da Santíssima Trindade.

Isto quer dizer que a fome de plenitude que levamos connosco só pode ser plenamente saciada na comunhão com Deus.

Por outras palavras, o Homem está talhado para ser divino. Pela Encarnação, a Divindade enxertou-se na Humanidade, a fim de esta ser assumida e incorporada na Família de Deus.

Ao ressuscitar, Jesus inseriu-nos na comunhão orgânica da Família Divina, possibilitando-nos uma interacção intrínseca com o Espírito Santo, tornando-se o sangue da Nova Aliança que faz circular em nós a vida divina.

O evangelho de São João diz que é este o sentido profundo da comunhão na Eucaristia (Jo 6, 62-63).

São João explicita ainda melhor esta verdade, dizendo que a carne e o sangue de Jesus rsuscitado, isto é, o Espírito Santo, faz germinar em nós a vida eterna:

“Assim como o Pai que me enviou vive e eu vivo pelo Pai, também quem me come viverá por mim. É este é o pão que desceu do Céu” (Jo 6, 57-58).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O HOMEM É UM MISTÉRIO QUE SE REVELA-III

III-JESUS CRISTO E O DOM DO ESPÍRITO

Segundo o evangelho de São João, o Espírito Santo é a Água Viva que faz emergir em nós a vida eterna (Jo 7, 37-39; cf. 4, 14).

O dom do Espírito, afinal, é o grande dom que Jesus tinha reservado para nós quando chegasse a sua hora, isto é o momento da sua morte e ressurreição (Jo 2,4).

Quando chegou a hora de Jesus, acrescenta São João, o dom do Espírito Santo saiu do coração de Jesus para nós em forma de Água Viva e de Sangue da Nova Aliança:

“Ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, os soldados não lhe quebraram as pernas.
Mas um dos soldados abriu-lhe o peito com uma lança e logo brotou Sangue e Água” (Jo 19, 33-35).

O sacramento da Eucaristia exprime este mistério da nossa união orgânica e dinâmica com Cristo ressuscitado pela acção vivificante do Espírito Santo.

São Paulo diz que fomos baptizados num mesmo Espírito, a fim de fazermos um só corpo (1 Cor 12, 13).

O Espírito Santo é, pois, o alimento que nos dá a vida nova e faz de nós corpo de Cristo (1 Cor 10, 17; 12, 27).

Vista à luz da fé, a fome de plenitude que levamos connosco é um chamamento ao amor. Na verdade, Deus é amor e só ele pode preencher a fome de felicidade que levamos connosco.

Não fomos feitos para estar sós, pois estamos talhados para a comunhão. Na visão bíblica, a morte espiritual é igual a solidão radical. É isto o que, em linguagem cristã, se chama inferno.

Jesus Cristo, ao ressuscitar, abre-nos as portas para a comunhão intrínseca com o Espírito Santo.
Isto quer dizer que, graças a Cristo ressuscitado, os seres humanos interagem com a pessoa do Espírito Santo no mais íntimo do seu coração.

Com seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo gera em nós uma vida nova. O evangelho de São João diz que temos de nascer de novo pela Água e pelo Espírito Santo, pois o nasce da carne é carne e nós estamos chamados a ser membros da Família de Deus (Jo 3,3-6).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O HOMEM É UM MISTÉRIO QUE SE REVELA-IV


IV-DEUS E O BEIJO DA VIDA

A incorporação dos seres humanos na Família da Santíssima Trindade acontece porque estamos moldados de modo a encontrar a plenitude em Deus.

Enquanto fazia os preparativos para criar o Homem, Deus deu um beijo no barro primordial do qual ia sair o Homem.

Nesse momento, diz o Livro do Génesis, o hálito da vida divina, isto é, o Espírito Santo, passou para o interior do barro e o Homem torna-se barro com coração (Gn 2, 7).

Animado pela força interior do Espírito Santo, o barro foi-se humanizando de modo gradual e progressivo.

Com o acontecimento de Cristo, a marcha da humanização deu um salto de qualidade, pois atingiu o limiar da divinização.

Com efeito, diz São Paulo, a plenitude dos tempos, isto é, a fase dos acabamentos do Homem é iniciada com Cristo e nós somos incorporados na Família de Deus.

Eis as palavras de São Paulo: “Mas quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho nascido de uma mulher, nascido sob o domínio da Lei de Moisés.

Deste modo, Deus resgatou os que se encontravam sob o domínio da Lei, a fim de estes receberem a adopção de filhos.

E porque somos filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho que, no nosso interior, clama: “Abba, Papá”.

Deste modo, já não somos escravos mas filhos. Ora, se somos filhos também somos herdeiros pela graça de Deus” (Gal 4, 4-7).

Com o acontecimento da Encarnação, Deus deu um segundo beijo ao Homem, possibilitando a sua divinização.

Na verdade, o divino enxertou-se no humano pelo acontecimento da Encarnação, dando-nos o poder de nos tornarmos filhos de Deus (Jo 1, 12-14).

Estes dois beijos ao Homem representam os dois momentos decisivos do plano de Deus para o Homem: a criação e a salvação humana.

O beijo de Deus Pai, no princípio da criação, inicia a dinâmica da nossa humanização. O beijo de Deus Filho, na plenitude dos tempos, inicia o processo da nossa divinização (Jo 6, 57-58).

O primeiro beijo significa a intervenção especial de Deus na criação do Homem. O segundo, significa a plenitude do Homem assumido e incorporado na comunhão familiar da Santíssima Trindade.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O HOMEM É UM MISTÉRIO QUE SE REVELA-V

V-RESSURREIÇÃO DE CRISTO E PLENITUDE DOS TEMPOS

Com Jesus Cristo a História deu um salto de qualidade: A Humanidade passou do estado de não divina, para a condição de divinizada através da sua incorporação na comunhão da Família de Deus.

Com Jesus Cristo, a Humanidade entrou na fase dos acabamentos. Antes de Cristo, o Homem estava apenas em processo de humanização.

Como a morte e ressurreição de Cristo, a Humanidade entra na fase da sua divinização. Por divinização quero significar a incorporação na comunhão orgânica da Santíssima Trindade como filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação a Deus filho.

Esta incorporação acontece pela acção do Espírito Santo que nos é comunicada de modo orgânico por Cristo Ressuscitado.

O Espírito Santo é o princípio vital de Cristo que circula e dá vida à união orgânica que existe entre Jesus de Nazaré e a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

O mesmo Espírito Santo é-nos comunicado por Cristo ressuscitado, a fim de alimentar uma união orgânica entre Jesus e a Humanidade.

O ser humano é capaz de comungar na medida em que está humanizado. Na verdade, comungaremos tanto mais com as pessoas divinas quanto mais tivermos crescido na capacidade de comungar com as pessoas humanas.

Por outras palavras, será eternamente mais divino quem mais se tiver humanizado na História.
A identidade espiritual da pessoa é a sua capacidade de se relacionar amorosamente e comungar com os irmãos.

Isto quer dizer que é na História que a pessoa se realiza e edifica a sua identidade eterna.
Utilizando uma imagem de festa, diria que dançaremos eternamente o ritmo do amor e da comunhão com o jeito que tivermos treinado agora, na História.

A festa do Reino é a superação total da solidão e a conquista definitiva da felicidade que só acontece em dinâmica de comunhão.

Como acabamos de ver, a nossa plenitude é proporcional à nossa realização. Com efeito, somos nós que construímos aquilo que será plenificado por Deus.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

O HOMEM É UM MISTÉRIO QUE SE REVELA-VI

VI-EMERGIR NA HISTÓRIA PARA ATINGIR A ETERNIDADE

Podíamos dizer que a matéria-prima da nossa realização é o nosso futuro é o que nos falta realizar para atingirmos a nossa plena realização.

Esta matéria-prima é o leque de possíveis que ainda temos para realizar. Mas este futuro pode acontecer ou não. Isso depende de nós.

A título de exemplo diríamos que o ovo de galinha, quando está fecundado, está cheio de possíveis para dar um pintainho.

Mas estes possíveis podem realizar-se ou não. Assim, por exemplo, se estrelarmos esse ovo não teremos pintainho.

Isto é para dizer que a nossa humanização não é uma fatalidade, pois depende de nós. A pessoa humana humaniza-se através de um encadeamento de opções, decisões e realizações na linha do amor.

A humanização do ser humano acontece como um processo histórico cuja lei é: “Emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a comunhão universal.

Em perspectivas cristãs esta comunhão universal é humano-divina graças ao acontecimento da Encarnação.

Podíamos dizer que a nossa identidade espiritual é o resultado pessoal da história que construímos com os talentos que recebemos dos outros.

É este o mistério do Homem em construção que se revela na medida em que a pessoa adquire capacidade para saborear a verdade do Homem.

A pessoa humana é um ser histórico. Faz-se, fazendo história. Para nos dizermos temos de contar uma história.

De tal modo esta tarefa é pessoal que ninguém nos pode substituir na tarefa da nossa realização.
Por outras palavras, a história pessoal que vamos construindo é, de facto, a matriz da nossa identidade espiritual e eterna.

Seremos eternamente seres com uma identidade histórica! Não estamos sozinhos nesta tarefa, pois o Espírito Santo está em nós e trabalha connosco.

Podemos ter a certeza de que Deus está tão interessado no sucesso da nossa realização como nós mesmos.

A maneira correcta de aceitar esta presença fecunda e dinâmica do Espírito Santo em nós implica contar com Deus, mas nunca tentar a Deus.

Tentar a Deus significa não fazer o que depende de nós, pretendendo que Deus nos substitua.
Deus está sempre connosco, mas nunca em nosso lugar.

Podíamos dizer que a atitude correcta neste aspecto é o seguinte: “Agir como se tudo dependesse de nós, sabendo que o essencial é obra de Deus”.

Em Comumnhão convosco
Calmeiro Matias

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

FÉ CRISTÃ E O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS-I

I-O REINO NO PLANO DE DEUS

Jesus inicia a sua pregação convidando as pessoas a converterem-se porque o Reino de Deus está perto.

Eis as palavras de Jesus no evangelho de São Marcos: “Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia e proclamava o Evangelho de Deus, dizendo:

“Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 14-15).

Os evangelhos dão a entender que o Reino faz parte de um plano que só Deus conhece. Por outras palavras, o Reino de Deus é um mistério, isto é, um segredo que só Deus conhece, mas que v ai revelar através do seu Filho:

“A vós é dado conhecer o mistério do Reino de Deus. Mas aos de fora tudo lhes é proposto em parábolas” (Mc 4, 11).

A carta aos Efésios fala do mistério do Reino que o Espírito Santo revela aos Apóstolos, a fim de estes poderem anunciar aos seres humanos o plano salvador de Deus:

“Deus manifestou-nos o mistério da sua vontade e o plano generoso que tinha estabelecido para conduzir os tempos à sua plenitude:

Submeter tudo a Cristo, reunindo nele o que há no Céu e na Terra” (Ef 1, 10). Em seguida, na mesma carta aos Efésios, São Paulo acrescenta:

“Por revelação me foi dado conhecer o mistério, tal como antes o descrevi resumidamente.

Lendo-o podeis fazer uma ideia da compreensão que tenho do mistério de Cristo, o qual não foi dado a conhecer aos filhos dos homens em gerações passadas, como agora foi revelado pelo Espírito Santo aos seus santos Apóstolos e Profetas.

Segundo este mistério, os gentios são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo e participantes da mesma promessa em Cristo Jesus, por meio do Evangelho” (Ef 3, 3-6).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro matias

FÉ CRISTÃ E O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS-II

II-OS SINAIS DO REINO DE DEUS

Enquanto realidade a emergir na História, o Reino de Deus está em gestação na História. Mas a sua plenitude está para lá da História.

No Pai-Nosso, Jesus ensina os discípulos a pedirem ao Pai a vinda do Reino (Mt 6, 10; Lc 11, 2).

Ao mandar os discípulos pregar o Reino de Deus, Jesus indicar-lhes que o Reino coincide com a meta do Plano Salvador de Deus (Lc 9, 2).

Os que forem perseguidos por causa da justiça, isto é, por causa da sua fidelidade à vontade de Deus, devem considerar-se felizes, pois deles é o Reino de Deus (Mt 5, 10).

Procurar o Reino de Deus é procurar o fundamental da salvação: “Procurai o Reino de Deus e a sua justiça” (Mt 6, 33).

Procurar a justiça é procurar a vontade de Deus. Na verdade, ser justo é ser fiel à vontade de Deus.

O Reino assenta no poder de Deus que é a força criadora e salvadora do amor. Eis o que diz a Primeira Carta de São João:

“O amor de Deus manifestou-se desta maneira no meio de nós: Deus enviou ao mundo o seu Filho Unigénito, para que, por meio de ele, tenhamos a vida” (l Jo 4, 9).

O tema da pregação de João Baptista era a necessidade da conversão para acolher o Reino de Deus que estava para chegar:

“Convertei-vos, dizia ele, pois o Reino de Deus (dos Céus em São Mateus) está próximo” (Mt 3, 1-2).

Os milagres de Jesus significavam que a força libertadora do Espírito Santo estava presente e activa.

Segundo os profetas, o sinal claro da chegada do Reino de Deus era a acção libertadora do Messias a actuar com a plenitude do Espírito Santo:

“Brotará um rebento do tronco de Jessé e um renovo brotará das suas raízes. Sobre ele repousará o Espírito do Senhor:

Espírito de sabedoria e entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor” (Is 11, 1-2).

Era com esta lente que Jesus interpretava a sua acção libertadora: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demónios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt 12, 28; Lc 12, 31).

Em comunhão convosco
Calmeiro Matias

FÉ CRISTÃ E O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS-III

III-REINO DE DEUS E REINOS TERRENOS

Os Apóstolos esperavam ser convivas da corte do Messias e ocupar aí os primeiros lugares (Mc 10, 35-45).

Jesus, pelo contrário, nunca confundiu o Reino de Deus com os reinos dos homens. Para ele, o Reino de Deus acontece ao nível da renovação dos corações e da libertação que impede a emergência e o respeito da dignidade humana.

Por isso, diz o evangelho de São João, é preciso nascer de novo para entrar no Reino de Deus:
“Quem não nasce do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasce da carne é carne, o que nasce do Espírito é Espírito” (Jo 3, 5-6).

O Reino de Deus implica decisão e fidelidade à vontade de Deus, a qual coincide rigorosamente com o que é melhor para nós:

“Quem lança mão do arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9, 62).
Ou então:

“Se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5, 20).

O Livro dos Actos dos Apóstolos diz que São Paulo, depois da sua conversão, passou a vida a anunciar o Reino de Deus (Act 28, 31).

Segundo o testemunho dos evangelhos, os Apóstolos só começara a ter uma ideia clara do Reino de Deus depois da ressurreição do Senhor.

Antes, diz Jesus no evangelho de São Mateus, os apóstolos apenas entendiam a realidade do Reino de Deus segundo os critérios da carne (mundo judaico) e não segundo os critérios de Deus (Mt 16, 23).

A acção messiânica de Jesus inicia o Reino. Mas este só atinge a fase da plenitude com o acontecimento da Ressurreição.

O Reino de Deus é constituído pela comunhão universal da Humanidade com a Divindade.
Isto quer dizer que o Reino de Deus é o ponto mais alto do Plano Salvador de Deus para a Humanidade.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

FÉ CRISTÃ E O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS-IV

IV-O REINO DE DEUS É COMUNHÃO ORGÂNICA

A realidade de Jesus Cristo é humano-divina, pois a dinâmica da Encarnação acontece como enxerto do Divino no Humano, condição para divinização da Humanidade.

Graças ao mistério da Encarnação, aconteceu uma união orgânica entre a Humanidade e a Divindade, a qual acontece como interacção directa do Homem com Deus em Jesus Cristo.

O princípio que vivifica e fortalece esta interacção humano-divina é o Espírito Santo. São Paulo diz que as pessoas que se deixam conduzir pela acção do Espírito Santo são incorporados na Família de Deus como filhos em relação a Deus Pai e como irmãos em relação ao Filho de Deus (Rm 8, 14-16).

Nesta união o Homem e Deus não se fundem nem confundem, pois trata-se de uma união orgânica onde as partes não se anulam nem mutilam.

Este mistério acontece através de Jesus Cristo, o qual é plenamente homem em união orgânica com a Humanidade.

Do mesmo modo, a Segunda pessoa da Santíssima Trindade é plenamente Deus com o Pai e o Espírito Santo.

Na verdade, a Encarnação acontece como um enxerto do divino no humano sem o alterar ou mutilar.

Do mesmo modo implica a integração do humano no divino sem o anular. Utilizando uma imagem da qual gosto muito diria que o ramo de limoeiro, enxertado na laranjeira, continua a dar limões e não laranjas.

Isto quer dizer que pela dinâmica da Encarnação nem a divindade é mutilada nem a Humanidade é anulada.

A seiva que circula e alimenta a união orgânica do enxerto é o Espírito Santo, amor de Deus derramado nos nossos corações, como diz São Paulo (Rm 5, 5).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

FÉ CRISTÃ E O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS-V

V-CRISTO COMO FUNDAMENTO DO REINO

Por ser o ponto de encontro e interacção do humano com o divino, Jesus Cristo é o medianeiro desta comunhão humano divina:

“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém pode ir ao Pai a não ser por mim” (Jo 14, 6).
Jesus Cristo é, pois, o alicerce do Reino de Deus. É através dele que acontece o encontro definitivo e do Homem com Deus:

“Pai Santo, eu dei-lhes a glória que tu me deste, a fim de que sejam um como nós somos um.
Eu neles e tu em mim, Pai Santo, para que cheguem à perfeição da unidade e deste modo o mundo reconheça que me enviaste e os amaste como me amaste a mim” (Jo 17, 23-24).

Podemos dizer que o Reino de Deus está em génese na história e culmina na assunção do Homem em Deus.

Além de estar no centro da pregação de Jesus, o Reino de Deus constitui o horizonte máximo da Esperança Cristã.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

FÉ CRISTÃ E O MISTÉRIO DO REINO DE DEUS-VI

VI-REINO DE DEUS E IGREJA

É importante não confundir a Igreja com o Reino de Deus. A Igreja é sacramento, isto é, corporiza e torna visível a dinâmica do Reino a emergir na História.

Ao mesmo tempo, a Igreja é uma mediação do Espírito Santo para facilitar a génese histórica do Reino de Deus no mundo.

Na Carta aos Efésios, O Apóstolo São Paulo sublinha este papel da Igreja quando diz: A mim, o menor de todos os santos, foi-me dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo e a todos iluminar sobre a realização do mistério escondido desde todos os séculos em Deus, o Criador de todas as coisas.

E deste modo, por meio da Igreja, é agora dada a conhecer a multiforme sabedoria de Deus, de acordo com o desígnio eterno que ele planeou em Cristo Jesus nosso Senhor” (Ef 3, 8-11).

A Igreja é sacramento. A sua missão é para a História. No Reino de Deus já não há sacramentos, mas sim a realidade explicitada na História pelos sacramentos.

O Reino de Deus, na sua plenitude, coincide com a humanidade divinizada em Cristo. Todas as pessoas estão convidadas a tomar parte no Reino de Deus.

Mas para tomar parte na festa do Reino de Deus é preciso ter a veste nupcial, isto é, ter um coração capaz de comungar fraternalmente:

“Jesus disse-lhes: “Em verdade vos digo que os cobradores de impostos e as prostitutas vão preceder-vos no Reino de Deus.

João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça e não acreditastes nele. Mas os cobradores de impostos e as prostitutas acreditaram, aceitando a sua mensagem” (Mt 21, 31-32).

Na Comunhão Universal do Reino, portanto, a palavra decisiva compete ao amor.

Em Comunhão convosco
Calmeiro Matias

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A ACÇÃO DE DEUS NA HISTÓRIA DAS PESSOAS-I

I-REALIZAÇÃO PESSOAL E REINO DE DEUS

Cada pessoa nasce chamada a realizar a tarefa da sua própria humanização. Da realização ou não desta tarefa depende a sua plenitude na Comunhão Universal do Reino de Deus.

Deus está tão interessado como nós na nossa própria realização e felicidade. Na verdade, o querer de Deus coincide com o que é melhor para nós.

Os seres humanos, portanto, não estão talhados para a inactividade ou terminar no vazio da morte.

Não somos frutos do acaso, pois nascemos para renascer, crescendo como interioridade pessoal espiritual mediante relações de amor e comunhão.

Realizamo-nos na medida em que entramos na dinâmica da humanização cuja lei é: emergência pessoal mediante relações de amor e convergência para a Comunhão Universal.

Emergir como pessoa significa crescer em densidade espiritual e capacidade de interagir com os outros em dinâmica de comunhão.

O crescimento interior da pessoa acontece como maior densidade de vida espiritual. Por outro lado, quanto maior for a densidade da vida espiritual, maior é a capacidade de uma pessoa interagir com os outros e dinâmica de amor e comunhão.

A plenitude da pessoa, portanto, não está em si, mas na comunhão com os outros. Na verdade, o ser humano emerge em duas dimensões: a exterior ou individual e a interior que é a sua vida espiritual.

Podemos dizer que a vida interior de uma pessoa emerge dentro do seu ser exterior como o pintainho emerge dentro do ovo.

Esta emergência está chamada à plenitude da comunhão amorosa da Família de Deus. Virá um dia em que o ovo, isto é, o nosso ser exterior vai rebentar e o pintainho nasce para o face a face da comunhão universal do Reino de Deus.

Na plenitude desta comunhão humano-divina cada pessoa é um ponto de encontro e comunhão.

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Calmeiro Matias

A ACÇÃO DE DEUS NA HISTÓRIA DAS PESSOAS-II

II-A PRESENÇA DO ESPÍRITO SANTO NO HOMEM

O ser humano nasce para renascer pelo Espírito Santo, o qual é a ternura maternal de Deus que nos gera para a comunhão da Família de Deus.

A pessoa humana emerge e cresce através da interacção amorosa com o Espírito Santo e as demais pessoas humanas.

A interacção amorosa com o Espírito Santo acontece no sentido da interioridade, pois Deus é a interioridade máxima de todas as coisas.

Por seu lado, a interacção amorosa com os outros seres humanos acontece de dentro para fora, isto é, do interior do coração humano para acolher o outro em reciprocidade amorosa.

O mistério da pessoa consiste em que esta só atinge e sua plenitude na dinâmica da comunhão amorosa.

Na verdade a Divindade é pessoas e a Humanidade também. O Homem foi sonhado à imagem de Deus e por isso a Humanidade caminha para a plenitude da comunhão com a Divindade.

Os seres humanos, portanto, não encontram a sua plenitude como pessoas isoladas, mas sim na comunhão as pessoas divinas.

De facto, existe uma só Divindade, apesar de serem três pessoas. Do mesmo modo só existe uma Humanidade, apesar de serem biliões as pessoas que a constituem.

Fechada em si e separada da dinâmica da comunhão, a pessoa está estado de perdição. Apenas em relação com os outros a pessoa se possui e encontra a sua plena identidade.

Isolada da comunhão, a pessoa fica em estado de inferno. Só a pessoa tem um coração capaz de eleger o outro como alvo de bem-querer.

Só a pessoa tem a capacidade de eleger os outros como irmãos, para lá dos laços do sangue. A meta desta eleição amorosa é a incorporação na comunhão da Família Divina, pela acção do Espírito Santo.
Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

A ACÇÃO DE DEUS NA HISTÓRIA DAS PESSOAS-III

III-A PESSOA E A VIDA ETERNA

São Paulo diz que os seres humanos que se deixam conduzir pelo Espírito Santo são filhos e herdeiros de Deus Pai e co-herdeiros com o Filho de Deus (Rm 8,14-17).

Depois acrescenta que o Espírito Santo é o amor de Deus derramado nos nossos corações (Rm 5, 5).

De facto, é no mais íntimo do nosso ser espiritual que acontece esta inserção e plenitude humano-divina.

O Espírito Santo tem aqui um papel central, pois ele é a pessoa divina que anima as relações familiares entre Deus e o Homem.

É também pelo Espírito Santo que acontece o mistério da Encarnação, isto é, o enxerto do divino no humano, possibilitando assim a nossa divinização.

O evangelho de São João diz que Deus nos deu o poder de nos tornarmos filhos de Deus, não pela vontade do Homem ou pelos apetites da carne, mas sim pela Encarnação (Jo 1, 12-14).

É verdade que a densidade espiritual e a capacidade de amar das pessoas humanas não são iguais às das pessoas divinas.

Mas graças à sua condição pessoal e à sua divinização as pessoas humanas são proporcionais às pessoas divinas.

É esta a razão pela qual foi possível acontecer o mistério da Encarnação. Por isso pode acontecer comunhão entre o Homem e Deus.

A emergência das pessoas humanas não é igual à emergência das pessoas divinas, pois as pessoas humanas são resultado de um processo de realização histórica.

Na verdade, a nossa identidade pessoal é histórica. Para nos dizermos temos de contar uma história.

Mas a nossa identidade pessoal, apesar de emergir na História, é eterna, pois tem densidade espiritual.

Por outras palavras, seremos eternamente segundo nos realizemos agora. As pessoas divinas, ao contrário das pessoas humanas, são uma emergência permanente de perfeição pessoal infinita e em total convergência de comunhão amorosa.

As pessoas divinas emergem como densidade espiritual infinitamente perfeita e total capacidade de comunhão amorosa. Os seres humanos, pelo contrário, não nascem feitos.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias




A ACÇÃO DE DEUS NA HISTÓRIA DAS PESSOAS-IV

IV-EMERGÊNCIA E PLENITUDE DO HOMEM NOVO

Como já vimos, os seres humanos nascem para renascer. Este renascimento acontece pela acção do Espírito Santo e a dinâmica das relações amorosas com os irmãos.

O mistério da vida pessoal é na sua essência um mistério de vida espiritual talhada para a comunhão amorosa.

O nosso ser exterior mede-se pelo peso. O nosso ser espiritual, pelo contrário, mede-se pela capacidade de amar e comungar.

O valor de uma pessoa não radica no que tem, mas sim no que é. A identidade definitiva de uma pessoa é constituída pelo seu jeito de amar e comungar com os irmãos.

Podemos dizer que na Comunhão Universal, o ser humano dançará eternamente o ritmo do amor com o jeito que tiver treinado na História.

É este o sentido desta fome de ser e amar que levamos connosco. Com efeito levamos no mais íntimo de nós o chamamento a transcender os limites desta nossa condição de seres inacabados e famintos de atingir a plenitude do amor.

O sentido profundo da nossa existência histórica não é apenas prolongar a vida mortal, mas sim edificar a vida eterna mediante o amor e a fidelidade aos apelos do Espírito Santo.

Por outras palavras, a nossa plenitude só pode acontecer em Deus. Dos pais recebemos a vida exterior, isto é, o nível biológico e psíquico do nosso ser.

Através do renascimento pelo Espírito e das relações de amor com os irmãos emerge e adquire a sua identidade o nosso ser espiritual.

À medida que emerge como vida espiritual, o ser humano passa a pertencer à galáxia da comunhão orgânica da das pessoas humanas com as divinas.

É a este nível que acontece o encontro universal das pessoas divinas com as humanas e todas as outras que possam existir.

O nosso ser exterior acaba no silêncio da morte ou da solidão cósmica. O nosso ser interior, pelo contrário, está chamado à plenitude amorosa da Santíssima Trindade.

O nosso ser interior é o santuário que não foi construído pela mão do homem, mas sim pelo Espírito Santo.

É neste santuário que Deus habita e se torna o Emanuel, isto é, o Deus connosco.

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

terça-feira, 5 de agosto de 2008

A NOVIDADE DO BAPTISM0 NO ESPÍRITO SANTO-I

I-BAPTISMO NO ESPÍRITO E VIDA CRISTÃ

Os evangelhos falam claramente da diferença essencial que existe entre o baptismo de João e o baptismo instituído por Jesus.

O baptismo de João não passava de uma lavagem ritual de purificação destinada a preparar as pessoas para a vinda do Messias.

O baptismo de Jesus, pelo contrário, é chamado pelo Novo Testamento como o baptismo no Espírito:

“Depois de mim, disse João Baptista, vai chegar alguém que é maior do que eu. Eu nem sou digno de levar as suas sandálias. Ele vos baptizará no Espírito Santo e no fogo” (Mt 3, 11).

Podemos dizer que o baptismo no Espírito é a dinâmica pentecostal da vida cristã, a qual perdura ao longo de toda a vida cristã.

O Espírito Santo comunica-nos a Sabedoria que vem de Deus (Act 15, 28; 1 Cor 2, 10-12). O evangelho de São João diz que o Espírito Santo nos ensina (Jo 14, 26).

Ele consagra-nos, isto é, optimiza as nossas capacidades, tornando-as carismas ou dons em favor dos irmãos (Act 13, 2; 20, 28).

Com o seu jeito maternal de amar, o Espírito Santo introduz-nos na Família de Deus: filhos em relação a Deus Pai e irmãos em relação ao Filho de Deus (Rm 8, 14-17).

Habita no nosso coração como num templo, diz São Paulo: “Não sabeis que sois templos de Deus e que o Espírito Santo habita em vós?” (1 Cor 3, 16).

A presença do Espírito Santo em nós é dinâmica e criadora. A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios diz que o Espírito Santo exerce uma acção libertadora no nosso coração:

“Onde está o Espírito de Cristo ressuscitado aí está a liberdade” (2 Cor 3, 17).

Em Comunhão Convosco
Calmeiro Matias

A NOVIDADE DO BAPTISM0 NO ESPÍRITO SANTO-II

II-BAPTISMO NO ESPÍRITO E HOMEM NOVO

Os crentes que vivem a dinâmica do baptismo no Espírito Santo são realmente homens novos, tanto pela transformação interior como pelo seu jeito de se relacionarem com os outros.

As pessoas que vivem o baptismo no Espírito são realmente um Nova Criação, pois vivem uma união orgânica e dinâmica com o Senhor ressuscitado.

Através desta união, os cristãos tornam-se membros do corpo de Cristo, isto é, mediações para o mundo se poder encontrar com Cristo ressuscitado (1 Cor 10, 17; 12, 27).

Mas além desta união sacramental ou mediação de encontro com Cristo, os crentes animados possuem uma força interior que vem de Cristo e optimiza a sua vida espiritual, tornando-os fecundos (Jo 15, 4-5)

Por ser o amor maternal de Deus, o Espírito Santo é o princípio divino da fecundidade. É ele que nos faz renascer para a vida espiritual, superando o nascimento natural.

Com efeito, diz o evangelho de São João, é preciso renascer pelo Espírito, pois o que nasce da carne é carne.

Na verdade, só é espiritual o que nasce do Espírito Santo (Jo 3, 3-6).

Em comunhão Convosco
Calmeiro Matias